sábado, 15 de agosto de 2009

Mudamos

Gentes Boas,

Todo o conteúdo desse blog foi transferido para o meu novo blog. O novo blog continua sendo atualizado semanalmente, porém este parou por aqui e breve estará fora do ar. Seria um prazer para mim recebê-los como acompanhantes do novo blog "quero SER mais HUMANO" - www.querosermaishumano.blogspot.com.

Bruno Montarroyos

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Novo Dicionário da Língua Parlamentar

Por Bruno Montarroyos

As novidades na câmara e senado têm despertado o interesse de todo o povo brasileiro. Cada dia uma surpresa advinda desse fantástico mundo do entretenimento jornalístico. E cada novo espetáculo relega o anterior ao esquecimento. Não se fala mais no Castelo e nem na verba indenizatória do Edmar Moreira. A notícia sobre a possibilidade de que o processo não fosse arquivado, caso 51 deputados assinassem um pedido de recurso, foi levemente veiculada. O desinteresse por parte dos deputados não foi nenhuma surpresa. O Nazareno livrou-se do cálice, renunciando o cargo de relator na Comissão de Ética, decepcionado com a promoção da impunidade. Foi como dizer: - Já que a Ética foi renunciada, renunciarei a sua Comissão também.

Política é uma arte difícil de entender, pelo menos para um ignorante como o que vos escreve. Ele tem se esforçado e Deus é testemunha disso. Toma-se uma palavra para tentar entende-la melhor. Que significa a palavra deputado? Vem à mente a palavra depurado, que significa “tornado mais puro”. Deputado então significaria... Hum, vejamos... Melhor deixar para lá, não é? Não! Vamos brincar de criar palavras ou então de empregar palavras já existentes com outros sentidos. Dizem ser bom para desabafar. E olha que o povo brasileiro precisa desabafar. Pôr para fora a revolta provocada por uma gestão política tão desordenada: uma má diGestão.

Existe filiação partidária. Como se chama quem se filia a um partido? Não importa! Chamaremos filhopartidário. Filiação por filiação, muitas adoções políticas são feitas. E novos modos de relações filiais surgem como, por exemplo, filiações nas pessoas que ocupam os cargos políticos. Há filiação ao senador fulano, ao deputado sicrano e por aí segue. Surgem assim os filhosenatários, tipo de filiação já superior ao filhopartidarismo. Seguida dos famosos filhodeputários, essa pode representar uma filiação ainda mais intensa que o próprio filhosenatarismo. E toda a senadoria está cheia desses diversos tipos de filiação, assim como toda a deputaria.

Sempre que a casa está cheia, deputaria em massa, os acordos filiateiros pululam incessantemente e até os verdadeiros filhos de deputados têm os seus interesses contemplados. E o filhodeputarismo reina absoluto, de castelo em castelo, entre os que se filhodeputariam sem qualquer pudor. Luto! Luto! Toda essa filhodeputaria deixa o povo brasileiro completamente... angustiado. E da angústia nasce a pergunta: Que deputaria é essa?

Que deputaria é essa?
Que não segue os Nazarenos na missão
Que judia de um povo que padece
Filhodeputariando nosso pão

Do próprio interesse enche a casa
Deputa a esmo o encargo
E aos cidadãos que lhe deram o doce
Imputa-se o veneno amargo

Se estás cheio
Deputarias tu
Teu valoroso voto
A um prato raso de angu?

E num contexto assim
Bastante infilhodeputado
Cabe a cada um de nós
Prover um outro resultado

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O castelo indestrutível

Por Bruno Montarroyos

Era uma vez uma cidade onde existiam apenas duas famílias e uma deusa cega chamada justiça. A cidade produzia alimento suficiente para todos. Havia riqueza suficiente para que toda a gente vivesse muito bem. Mas o representante de uma das famílias, chamado Edrio Moreira, resolveu se apropriar de toda a riqueza da cidade. Invadiu as propriedades da outra família roubando-lhe tudo o que tinham. Construiu, então, para a sua família um castelo riquíssimo e vivia muito bem. À outra família, representada por um homem carinhosamente apelidado em um dialeto indígena, Pagacontas, restou construir para si um barraco com os destroços que sobraram no lixo do suntuoso castelo da família Moreira.

Certo dia, vendo a família castigada por uma grave fome, o senhor Pagacontas ficou à espreita da senhora Moreira, esperando um momento em que o destino pudesse lhe dar uma pequena ajuda. Foi então que ele a viu passar com sacolas cheias de alimentos. Aproximou-se silenciosamente e, em um só impulso, enfiou a mão dentro de uma das sacolas tirando-lhe uns pães e correu com todas as suas forças para levar àqueles seus o produto tão esperado. A deusa até então cega, dona justiça, fica momentaneamente curada, condenando o senhor Pagacontas à morte e toda a sua família à miséria ainda maior que a atualmente vivenciada.

Os personagens dessa história não são totalmente fictícios, nem tão pouco a história. Porque será tão difícil entender os motivos do senhor deputado Edmar Moreira ter sido absolvido pelo conselho de ÉTICA da câmara dos deputados? Afinal, roubar alimento para socorrer uma família passando fome é que é crime de verdade que merece punição. Desviar R$ 180.000,00 por ano só de um benefício chamado Verba Indenizatória, pago pelo povo brasileiro, a família Pagacontas, isso não é nada grave. O coitadinho não fez nada de mal.

Para ajudar a esclarecer um pouco mais essas dúvidas basta acessar o site: http://www2.camara.gov.br/transparencia/vi, onde é possível ver quanto cada deputado gastou por mês dessa verba. Claro que não devemos consultar de fevereiro de 2009 para cá. Deve-se consultar antes disso. Antes da bomba estourar. É possível pesquisar pelo seu estado e ver apenas os deputados que estão representando a sua terrinha. Talvez uma olhadinha nesses gastos esclareça um pouco do porque absolver o anjinho do Castelão. Quem pode atirar a primeira pedra? Quem arriscaria ser o próximo? Ouço uma voz dizer que se forem achados pelo menos 51 justos entre esses deputados, ainda pode haver salvação a essa Sodoma e Gomorra.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Quem matou Michael Jackson?

Por Bruno Montarroyos

É curioso observar a forma como se dá o jogo de poder no mundo em que vivemos. Informação é uma palavra-chave. A concentração dessa informação é uma realidade. São menos de meia dúzia de corporações controlando 90% dos meios de comunicação mundiais. E essas pouquíssimas e gigantes corporações demonstram estar de acordo entre si. Uma grande pergunta em um contexto como esse seria: É possível saber a verdade sobre as coisas?

Michael Jackson abusou sexualmente de algumas crianças, diz a grande mídia. Após a sua morte, alguma criança já adulta nega tudo afirmando ter sido obrigada pelos pais a sustentar a calúnia. Qual a verdade? Talvez não seja possível saber a verdade sobre o abuso das crianças, sobre a sexualidade do astro ou mesmo sobre a causa de sua morte. Mas algumas verdades estão bem na cara. Não importa a vida de quem seja destruída. Não importa a ética ou o bem-estar social em um mundo prostrado diante do seu maior ídolo: O capital. E quem detém o poder e a concentração da informação molda a verdade conforme a sua própria conveniência, da forma que lhe der mais lucro.

Um aclamado jornalista brasileiro chamado Aloysio Biondi, in memorian, afirmou que depois de 42 anos de jornalismo e tendo enfrentado a ditadura, nunca viu se mentir tanto como no jornalismo atual. No documentário The Corporation, uma publicitária, ao ser questionada sobre a ética em manipular crianças a se tornarem consumidoras compulsivas, responde que esse é o seu trabalho e se é bem feito não há necessidade de se considerar qualquer ética.

O lado mais triste de toda essa história é que qualquer produto só poderá se tornar um sucesso de vendas se houver quem o compre em massa. E parece que mentiras estão entre os produtos que mais vende, ao lado de boatos e fofocas. E se for a respeito de alguém famoso melhor ainda. As corporações da informação não tem qualquer interesse em saber quantas vidas serão leve ou gravemente prejudicadas. Só lhes importa o retorno monetário que a notícia propiciará. E nós, consumidores diretos ou indiretos desse produto corrompido, poderemos estar contribuindo fortemente com essa grave subestimação de nossas capacidades intelectuais.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Uma Viagem à Alterlândia


Por Bruno Montarroyos

Que cena espetacular aquela! Ônibus e bicicletas circulando lado a lado na mais perfeita harmonia. Não havia ciclovias. As mesmas estradas eram solidariamente compartilhadas por todo o tipo de veículos e o trânsito fluía livremente. Havia pouquíssimos carros particulares. Nunca pensei ver um transporte público tão eficiente em uma cidade tão grande como aquela. – Boa noite, senhor, é um prazer tê-lo aqui, disse o motorista do ônibus que acabara de entrar. Pensei que ele tinha me confundido com alguém importante. Logo depois perceberia que era a forma que ele tratava a todos, falando sempre com muita simpatia. Perguntei-lhe como é que eu poderia pagar, já que não vi o cobrador. Ele sorriu com uma expressão desconcertada e respondeu: - Já está pago, senhor: os impostos, lembra? Não discuti e logo sentei sem entender direito o que se passava. Desci numa parada em frente a um hospital e resolvi conhecer. Pela fachada pensei se tratar de um desses enormes hospitais particulares de luxo a que tem direito apenas aqueles que podem pagar por planos de saúde caríssimos. E de fato era um hospital de luxo. O atendimento era perfeito. Os funcionários pareciam estar realmente unidos no importante serviço de recuperação daqueles pacientes. Perguntei a uma moça que estava saindo se aquele era realmente um hospital particular. Ela franziu a testa e repetiu as minhas ultimas palavras em tom de interrogação: - Hospital particular? Senhor, perdoe-me, mas não existe hospital particular. Hospital é para todos, não pode ser particular. Saí daquele lugar e sentei em um banco onde havia um casal de velhinhos também sentados. Eles pareciam um casal de namorados e decidi interrompe-los um pouco para tentar sair daquele emaranhado de dúvidas em que me metera. Narrei-lhes a minha experiência no ônibus e no hospital e perguntei a eles se aquela cidade sempre foi assim. Eles me falaram que apenas os velhos poderiam me responder isso por experiência própria, pois teriam vivido em uma época em que as coisas eram bem diferentes. Disseram-me que tudo mudou quando o povo resolveu exigir que a carreira política fosse almejada com outras intenções e para isso estabeleceram algumas regras para as próximas eleições. Os candidatos eleitos para assumirem os cargos deveriam se adaptar a novas condições. Nenhum representante do povo pertencente aos poderes executivo, legislativo ou judiciário pode, enquanto estiver sob a investidura do cargo, se utilizar livremente de transporte particular, exceto por um dia em cada semana. Deverá utilizar a rede de transporte público como qualquer outro cidadão. Também não pode possuir plano de saúde e nem usufruir serviços de hospitais que não sejam públicos. Isso se aplica também à sua família. Seus filhos serão obrigados a estudar em colégios públicos e não terão qualquer prioridade na obtenção de vagas. E as condições impostas caminhavam nesse sentido de fazer com que os políticos dependessem do sistema que eles foram escolhidos para administrar. O povo decidiu isso porque não tinha sentido eleger representantes que não tivessem as mesmas necessidades do povo. E a partir daí os serviços públicos relacionados à educação, saúde, transporte, segurança, tudo enfim, começaram a melhorar e naturalmente caiu a procura pelos serviços oferecidos pela iniciativa privada, relegando-a ao esquecimento. Isso fez com que fossem reduzidos os desvios de verbas e outras formas ilícitas de ganhos pelos políticos, já que eles não queriam arriscar a si mesmos e aos seus dependerem de um serviço ruim na área da saúde, por exemplo. Aquele casal de velhinhos me disseram que até as eleições foram mais tranqüilas, sem muita disputa e as pessoas que se ofereciam como candidatos eram pessoas de fato comprometidas com o interesse de lutar por uma vida mais digna a todos. Quando acordei foi impossível não pensar: Já que os nossos impostos pagam passagens aéreas para esses nossos representantes e suas famílias passearem, vamos exigir que chegue às mãos de cada um deles passagens com destino a um mundo melhor para o povo a quem eles deveriam servir. Uma viagem que saia da Egolópolis onde eles estão até essa terra sagrada que conheci em sonho e que se chama Alterlândia.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Raio de Sol e Pernambucanidade


Por Bruno Montarroyos

Já passava da meia noite quando me preparava para dormir. A música de fundo era um som festeiro fora dos arraiais dos meus sonhos. Ao ouvir a introdução de "Liberdade" de Marcelo Camelo executado pelas habilidosas mãos de Dominguinhos ao Acordeon pensei: "Marcelo Camelo numa quadrilha junina é bastante inovador e tem a cara de uma amiga minha". Não deu outra e logo ouvi a identificação daquele grupo sob as palavras de seu marcador, irmão da minha amiga Leilane Nascimento: - Raio de Sol ! Estava claro! Era de fato a quadrilha Raio de Sol, da qual participa minha querida amiga, Pernambucana de corpo e espírito, de cabeça e de pés. A alguns passos de minha casa estava a possibilidade de rever essa figura rara que mora provisoriamente em Vitória da Conquista na Bahia. E lá estava ela, bela como o próprio nome da quadrilha. E que espetáculo para aquelas pessoas que estavam presentes ali - Incluindo o seu marido, meu amigo Vandré, gente boa demais. Foi uma verdadeira exaltação à cultura pernambucana. Uma experiência mística, anunciadora de sentimentos os mais diversos, conduzidos por uma beleza que só pode ser expressa e coerentemente vivenciada por nós, esse povo sofrido e festeiro, trabalhador e sonhador, caloroso e sensível. O repertório nos convidava a uma viagem guiada pelas aves nordestinas. Quem recebeu os viajantes foi também quem se despediu no final. Essa ave-homem ou homem-ave, que conta a história do homem com a beleza sonora do canto de uma ave: Patativa do Assaré. E as aves nos conduziram por esses caminhos do nordeste, que ficam entre a luta e o festejo de um povo riquíssimo e honrado. Caminho entre os descaminhos dessa vida, entre a sêca e as enchentes, entre as multidões e a saudade. Como diria Cabral, não o Pedro mas o João, Não o Álvares mas o de Melo Neto, entre a morte e a vida Severina.

Entre o forró, maracatu, xote, baião.
Entre a barriga vazia e a enxada na mão.
Entre as asas brancas e os sabiás
Entre assuns pretos e carcarás.

E ao ser devolvido pelas aves ao chão daquela palhoça
depois de tanta magia fiquei a pensar
Será ousadia a uma conclusão chegar:
Que menos pernambucano é aquele que não estava lá?

Mas não fique triste porque as aves voltaram ao meu encontro com a maior alegria de anunciar:

A união nordestina de aves culturais
Antes que as fogueiras se apaguem
Resolvem presentear com mais uma viagem
Ao que quiser se pernambucanizar mais

Dessa vez com muito mais beleza
Através da nossa natureza
No destino nordestinodescortinar

Místicos encantos e magia
Nordeste e nordesteiros
Asas, aves e puleiros
Música, dança e harmonia

E numa anilha que uma delas carregava, letras de forma anunciavam data e local de partida:
Domingo, 28 de junho, dez e meia da noite
Recife/PE, Sítio da Trindade
Quadrilha Raio de Sol e Pernambucanidade


quarta-feira, 17 de junho de 2009

Omissão ou Missão

Por Bruno Montarroyos

Esse é o retrato da sua omissão ou missão?
O AMARGO, a DOR de OUVIR, FEDE fingir que não VÊ
Que mundo é esse que herdamos do seu?
Que mundo vamos deixar?
Se no meu vôo só há espaço pra um lugar

Há certas coisas que tento, mas não dá pra entender
Deixar sofrer e morrer ou matar seu irmão, seu próprio irmão
Todo o ouro em um só lugar
O barco vai virar
E quem mais peso tiver, primeiro vai afundar

As pessoas, a maior riqueza
Cada um, o melhor lugar

Se o mundo inteiro pudesse ouvir o clamor
Se o zero vírgula e o nove tivessem o mesmo valor
A gente vamo pru mermo lugá
E o que nóis vai levá?
A violência começa no meu modo de pensar

Mundo digital
Realidade presente do que era futuro utópico no passado analógico
Multi-tarefas, multi-função
O que um faz hoje era trabalho para um batalhão, para um batalhão
E com toda essa expansão tecnológica
Expandem-se os espaços entre nós
E a competição espacial rumo ao comodismo social
Me colocam no centro unitário de minha própria atenção
Um dia tivemos jovens lutando para tudo melhorar
Hoje o sofrimento humano é celebrado com pipoca e guaraná
Assassinato é jogo de criança
Fome é entretenimento de jornais
A miséria de tantos de mim recebe apenas medo, desprezo

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Sobre Crianças em situação de risco ou "Viajando na Maionese" (Segundo Cacau, minha futura holder)

Por Bruno Montarroyos

Um dia eu estava em um workshop de bateria com um baterista mundialmente conhecido, chamado Johnatan Moove. Ele demonstrava uma habilidade extraordinária naquele instrumento. E a sua bateria era daquelas enormes, cheias de recursos. Enquanto ele tocava, previamente combinado algumas pessoas iam lentamente tirando as peças da bateria. Tiravam-lhe tudo exceto os três componentes básicos: O bumbo, o Chimbal e a caixa. E ele tocava com a mesma maestria. No final ele explicou: Não precisa ter um instrumento cheio de recursos para ser um bom músico. O bom músico saberá trabalhar com o que tem em mãos e fará disso o suficiente para obter os melhores resultados. Aquilo me chamou bastante atenção. Eu lembro. Como gosto de lembrar das coisas. Acho que a atividade de lembrar é uma das que mais me fascina. Quem não gosta de trazer à memória boas lembranças? Lembro que teve um acampamento desses de igreja que a banda teve uma discussão e terminou que os instrumentos musicais não foram levados ao acampamento. O ambiente era de extrema desolação. Nessa época eu era muito animado, empolgado. Procurei logo animar os músicos: -Não se deixem vencer, falei. Propus fabricarmos instrumentos ali. E logo depois estávamos com alguns instrumentos que nós mesmos fizemos com bambus, madeira e outras coisas que não lembro bem. Esse exercício de voltar no tempo para novamente experimentar, ao menos nas lembranças, aquilo que um dia nos deu prazer. Eu quero falar sobre crianças em situação de risco, mas quando tento me concentrar nesse assunto é impossível fugir a alguns pensamentos. Afinal, o que é uma criança em situação de risco? As cartilhas me dirão que são aquelas crianças que estão expostas a situações que possam causar danos à sua saúde fisica ou emocional, ao seu desenvolvimento, etc. A situação de risco seria então esse contexto onde uma criança pode ser coptada mais facilmente para a prostituição ou para o tráfico de drogas, por exemplo. São muitos os casos de crianças exploradas nessas atividades. E o que nós podemos fazer diante de um contexto aparentemente tão difícil de se resolver? Penso primeiramente em tentar entender o que provoca essa situação de risco. Essa situação de risco a que as crianças estão expostas é uma realidade generalizada? O que seriam crianças em situação de risco em uma tribo indígena que ainda não foi desapropriada pela nossa modernidade? Existiriam essas crianças? Existiria essa situação de risco nesse contexto? Creio que não. Penso que a situação de risco que falamos é o resultado de coisas que inventamos. Somos muito criativos. E com essa criatividade criamos muita coisa boa. Mas hoje também é criada muita futilidade que querem empurrar-nos goela abaixo. Esse mercado capitalista quer nos convencer que a nossa felicidade está exatamente em algo que ainda não temos. E assim vivemos. Sempre em busca dessa felicidade que virá na próxima compra. Todos querem ter isso e aquilo que o outro tem. E penso que muito dessa "situação de risco" que algumas crianças se encontram tem a ver com isso. A maioria das crianças que entram no mundo da prostituição ou do tráfico de drogas, por exemplo, o fazem geralmente motivados pela necessidade de "ter" também os produtos que todo mundo tem. Mata-se para conseguir o dinheiro para comprar aquela bermuda de marca ou aquele aparelho do MP da vez. Eu volto no passado e me lembro que os melhores presentes que tive foram fabricados pelo meu pai ou por mim mesmo. Lembro de um caminhãozinho de madeira que ele me deu. Ele mesmo fabricou. Aquele ato de fabricar os próprios brinquedos me inspirava e me tornei uma criança bastante criativa. Inventando brinquedos e brincadeiras. Acho que hoje poucos pais fabricam brinquedos para os seus filhos. Talvez tenham medo de seus filhos não gostarem. Afinal a TV diz o que é legal dar de presente. E nós temos que aceitar. Gosto de lembrar desses brinquedos fabricados em casa muito mais do que dos que foram comprados. No futuro muitas crianças terão lembranças bem diferentes das que tenho da minha infância. Lembrarão de presentes como playstation, mp3, celular... Acabei de ler uma frase na camisa de um rapaz que dizia: "A máquina não é mais importante do que as mãos". Imagino que a camisa dele deva ter sido costurada à mão. Lembro que nós costumávamos comprar tecidos e entregar a costureiras para fazer-nos roupas. Era um trabalho manual e muitas pessoas viviam de trabalho assim. Há um versículo em Eclesiastes 2.24 que diz "Vejam: a felicidade do homem está em comer e beber, desfrutando o produto do seu trabalho". Não quero dizer para voltarmos tudo como era no passado, mas já parou para pensar? Todos trabalhando, plantando, cuidando dos bichos e vivendo do produto direto do próprio trabalho como foi um dia? Onde estaria a situação de risco? Infelizmente não é possível voltar a sociedade inteira para isso, mas vale lembrar para pelo menos saber avaliar melhor a importância das coisas. Saber o que é importante mesmo e o que não é tão importante. Uns plantavam, outros cuidavam de bichos, outros costuravam, cada um era bom em uma arte e a ensinava aos seus filhos. Mas como hoje preferimos comprar as coisas daquela marca legal que passa na TV, aí existe cada vez menos artistas. Preferimos usar as coisas que são fabricadas aos milhões por máquinas que tiraram empregos de muita gente. Porque assim não nos sentimos inferiores ao que já tem esse produto. Como vou usar uma roupa de costureira se todos estão usando aquela marca legal? Assim quem pode pagar pela marca famosa paga. Quem não pode tem que arrumar alguma outra forma de ter. Lembro quando eu, meu pai, minha mãe e minha irmã saíamos na rua cada um com um pano nas mãos e gritando: - Cai, cai, tanajura, tua bunda tem gordura !!! Lembro das brincadeiras na rua enquanto eles estavam sentados em cadeiras também naquela rua de barro. O que mais me traz alegria nessas lembranças é a presença deles ali, juntinhos conosco, participando. Não existe coisa mais rica nesse mundo do que a nossa presença junto àqueles que amamos. Essa semana eu estava revendo fotos daquela nossa casa em Caetés. A casa tinha um pequeniníssimo banheiro, uma cozinha e uma sala que também nos servia como quarto da família inteira. Cercada por uns sarrafos de madeira, com portão e tudo. Muros não existiam. Eram cercas de madeira ou nada. Quando chovia era uma lama só na rua. Mas como éramos felizes. Aprendi desde cedo a viver muito bem com o que tinha. Se meu pai não podia comprar um brinquedo legal da moda que eu via na tv ele fazia um brinquedo como o caminhãozinho de que falei. Se não podíamos comer de todas as guloseimas que existem, comíamos alegremente do que podíamos. Quando meus pais podiam, compravam roupas, mas usávamos também roupas que recebíamos de parentes numa situação melhor. Roupas que não usavam mais. Os "nãos" que tive durante a minha infância me ensinaram bastante. Nenhum pai ou mãe deveria se envergonhar quando não tivesse condições de dar um presente "legal" daqueles que passam nos comerciais da TV. Deveriam sim, se envergonhar de dar tudo o que os filhos pedirem. Precisamos aprender a ter e a não ter as coisas. Mesmo se eu tivesse condições o suficiente para dar tudo o que minhas filhas me pedissem eu gostaria de ter sabedoria para dizer não. Elas precisarão aprender a não ter algo que querem. Se todos conseguirmos educar assim os nossos filhos, só isso significaria uma “situação de risco” bem menor para as crianças empobrecidas. Em meu texto “Penumbra” falo sobre a luz de uma vela. Se muitas pessoas estão reunidas em um galpão muito bem iluminado durante a noite é possível ver a todos. Mas veremos todos de uma forma muito superficial por haver muitas pessoas. Umas perto outras longe, mas muita gente, muita informação. Se apagássemos todas as luzes desse ambiente e deixássemos uma vela próximo de uma dessas pessoas da multidão seria provável que muita gente daquela multidão perceberia pela primeira vez essa pessoa iluminada pela luz da vela. Como pode uma luz tão pequena e fraca mostrar detalhes que todos os refletores outrora acesos não mostravam? E se essa pequena luz fosse passando de mão em mão, devagar, cada pessoa teria o seu momento de ser o foco de todas as atenções. Os detalhes das unidades seriam mais intensos do que quando todos estavam à vista ao mesmo tempo. Os instrumentos de que falei no começo, improvisados, simples, o caminhãozinho de madeira que o meu pai me deu de presente e a vela de que falo agora, todos fazem parte do mesmo mundo: O mundo da simplicidade. Todos me dizem que é possível ter o máximo de prazer na vida, viver intensamente, viver bem e feliz, sem precisar ter muita coisa. Se faltar uma bateria cheia de recursos na nossa vida, é possível tocar a vida com um caixote simples, desde que não falte a alegria musical em nosso viver. Se faltar dinheiro para dar presentes, é possível fabricar algo, de coração, ainda que seja uma carta dizendo àquela pessoa o quanto a estimamos. Não deixe de se fazer presente à comemoração de alguém por não ter um presente legal. Ora, se não tivermos todos os produtos que a modernidade da eletricidade e eletrônica trouxeram para encher o nosso dia-a-dia de refletores, é possível que a luz de uma pequena vela possa nos proporcionar uma visão ainda mais intensa. A vela aqui representa as coisas que já temos em mão, mas que as muitas coisas que ficamos interessados em ter nesse mundo não nos permitem vê-las. São aquelas pessoas que estão perto de nós, é a saúde, qualquer coisa que já temos. Espalhemos a notícia. Podemos viver bem agora, com o que temos, sem ter grandes ambições de ter muitas coisas para que possamos ser felizes. Espalhemos a notícia. Se todos conseguissem enxergar a beleza, a intensidade da luz de uma simples vela, teríamos a mesma situação de risco de uma tribo indígena: Nenhuma. E assim não haveriam crianças em situação de risco. Desculpas aos que esperavam dados estatísticos e informações atualizadíssimas sobre as crianças em situação de risco em nosso país. Mas imagino que essa informação esteja muito mais disponível por aí do que essa que tentei passar. E repito: o “risco” do qual falamos é exatamente a necessidade do “ter”. Quem já tem tudo não está na “situação de risco”. Só quem quer ter. Crianças em situação de risco são crianças que querem “ter” ou que os pais querem “ter”. E esse "ter" não é só o da subsistência. E essa necessidade do "ter" cresce à medida que os que já têm alguma coisa querem ter cada vez mais. E para isso querem convencer todos nós a querer também ter cada vez mais. E um mundo onde ninguém consegue estar bem com o que já tem é um mundo de situação de risco. E a minha conclusão é que o fato de existirem crianças em situação de risco no mundo em que vivemos explica-se pela existência de adultos em situação de ganância.

Parte do sermão na Primeira Igreja Batista em Bultrins em 07/06/2009

sábado, 30 de maio de 2009

Penumbra

Por Bruno Montarroyos

Uma vela acesa ao meu lado
Traz uma faísca do passado, amor
Luz silenciosa que permeia
De beleza tudo o que rodeia

A escuridão que esconde os seus
Tesouros mais secretos
Ofuscados pelo excesso
Do Fulgor da luz dos refletores
Sóis que roubam a essência
Mais profunda dos detalhes
Que essa penumbra pode dar


Sentado à meia escuridão, parcialmente interrompida por uma pequena vela acesa sentada ao meu lado no sofá de casa. Percebo que os objetos ao redor da luz de uma vela trazem uma beleza que uma luz mais intensa não pode proporcionar. A quantidade de informações que se tem dos objetos é bem menor sob a luz de uma pequena vela, mas a profundidade das informações é inigualável. Uma luz elétrica de forte intensidade como as que usamos apresenta todos os objetos ao seu redor no mesmo plano. Tudo muito bem iluminado. Dependendo da quantidade destes, ficamos à nossa frente com um sem-número de coisas com as quais podemos nos distrair. São fontes iluminadas implorando por nossa atenção. Uma vela acesa não tem um alcance luminoso capaz de descobrir a nós tudo ao mesmo tempo. Ela não tem o poder de simular na noite a luz do dia. Para descobrir o universo ao nosso redor é preciso que nos desloquemos conduzindo a luz da vela junto a nós. E assim a sua luz nos apresentará os detalhes de cada objeto. Detalhes que passariam despercebidos se tivéssemos todos ao mesmo tempo à nossa mira. Uma descoberta gradativa forçando-nos a dedicar mais atenção aos objetos mais próximos revelados pela fraca luz. A vela geralmente traz consigo o silêncio. A pouca luz, poucas coisas para se distrair por vez, junto com o silêncio, trata-se de um convite para viver o presente com mais intensidade. Sim porque se nos imaginarmos numa caminhada. Uma estrada plana, longa, cheia de atrações, pessoas, paisagens, oportunidades, experiências diferentes. Imaginemos essa caminhada à plena luz onde você consegue ver as coisas que só conseguirá alcançar em algumas horas. Podemos dizer que você está enxergando o seu futuro. Seus olhos estão já se distraindo com motivos que só no futuro estarão próximos a você. Você os vê bem longe na estrada à sua frente. E é muito provável que a distração com essas coisas pertencentes ao seu futuro tire de você a oportunidade de enxergar e participar de tudo o que já está diante de você. O seu presente. Essa mesma caminhada na escuridão, parcialmente interrompida por uma pequena vela acesa, lhe obrigaria a reparar mais naquilo que está mais próximo. Pois o futuro só seria revelado quando a pequena luz estivesse presente. Quando você pudesse de fato participar daquele momento aí sim ele estaria à sua vista. Enquanto isso você seria obrigado a viver o presente com tudo o que ele oferece. Nós humanos somos muito criativos. Criamos tanta parafernalha, das quais nos tornamos dependentes, que muitas vezes é difícil saber dar importância às coisas certas. Um dia já vivemos satisfeitos apenas com comida e companhia. Hoje nós temos à nossa vista uma quantidade e variedade enorme de coisas que queremos ter para que nos consideremos realizados. Talvez uma pane global que roubasse toda a energia da terra conseguise nos dar a oportunidade de reaprender quais são as coisas mais importantes. Já simulou como seria? Nenhuma energia elétrica. Um mundo sem luz elétrica, sem TV, sem rádio, sem computadores, sem celular... Assim aprenderíamos a dar mais valor a tudo aquilo que está bem pertinho de nós, incluindo aqueles que nos amam e a quem amamos também.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Retratação

Por Bruno Montarroyos

Cláridas belezas!
Já não vejo
As cores-luz do dia
Lembranças de alegria
Pegadas no vazio
Já não vivo

Sugaram-me as forças
Já não fujo
Tornei-me logo em réu
De um crime contra os céus
No agonizar da dor
Já não morro

Não vejo, não vivo, não fujo
Já não sou
Moldado à vontade alheia
Não morro pelo que corre na veia
Convenientemente político
Já não Eu

20/07/2004