sábado, 15 de agosto de 2009

Mudamos

Gentes Boas,

Todo o conteúdo desse blog foi transferido para o meu novo blog. O novo blog continua sendo atualizado semanalmente, porém este parou por aqui e breve estará fora do ar. Seria um prazer para mim recebê-los como acompanhantes do novo blog "quero SER mais HUMANO" - www.querosermaishumano.blogspot.com.

Bruno Montarroyos

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Novo Dicionário da Língua Parlamentar

Por Bruno Montarroyos

As novidades na câmara e senado têm despertado o interesse de todo o povo brasileiro. Cada dia uma surpresa advinda desse fantástico mundo do entretenimento jornalístico. E cada novo espetáculo relega o anterior ao esquecimento. Não se fala mais no Castelo e nem na verba indenizatória do Edmar Moreira. A notícia sobre a possibilidade de que o processo não fosse arquivado, caso 51 deputados assinassem um pedido de recurso, foi levemente veiculada. O desinteresse por parte dos deputados não foi nenhuma surpresa. O Nazareno livrou-se do cálice, renunciando o cargo de relator na Comissão de Ética, decepcionado com a promoção da impunidade. Foi como dizer: - Já que a Ética foi renunciada, renunciarei a sua Comissão também.

Política é uma arte difícil de entender, pelo menos para um ignorante como o que vos escreve. Ele tem se esforçado e Deus é testemunha disso. Toma-se uma palavra para tentar entende-la melhor. Que significa a palavra deputado? Vem à mente a palavra depurado, que significa “tornado mais puro”. Deputado então significaria... Hum, vejamos... Melhor deixar para lá, não é? Não! Vamos brincar de criar palavras ou então de empregar palavras já existentes com outros sentidos. Dizem ser bom para desabafar. E olha que o povo brasileiro precisa desabafar. Pôr para fora a revolta provocada por uma gestão política tão desordenada: uma má diGestão.

Existe filiação partidária. Como se chama quem se filia a um partido? Não importa! Chamaremos filhopartidário. Filiação por filiação, muitas adoções políticas são feitas. E novos modos de relações filiais surgem como, por exemplo, filiações nas pessoas que ocupam os cargos políticos. Há filiação ao senador fulano, ao deputado sicrano e por aí segue. Surgem assim os filhosenatários, tipo de filiação já superior ao filhopartidarismo. Seguida dos famosos filhodeputários, essa pode representar uma filiação ainda mais intensa que o próprio filhosenatarismo. E toda a senadoria está cheia desses diversos tipos de filiação, assim como toda a deputaria.

Sempre que a casa está cheia, deputaria em massa, os acordos filiateiros pululam incessantemente e até os verdadeiros filhos de deputados têm os seus interesses contemplados. E o filhodeputarismo reina absoluto, de castelo em castelo, entre os que se filhodeputariam sem qualquer pudor. Luto! Luto! Toda essa filhodeputaria deixa o povo brasileiro completamente... angustiado. E da angústia nasce a pergunta: Que deputaria é essa?

Que deputaria é essa?
Que não segue os Nazarenos na missão
Que judia de um povo que padece
Filhodeputariando nosso pão

Do próprio interesse enche a casa
Deputa a esmo o encargo
E aos cidadãos que lhe deram o doce
Imputa-se o veneno amargo

Se estás cheio
Deputarias tu
Teu valoroso voto
A um prato raso de angu?

E num contexto assim
Bastante infilhodeputado
Cabe a cada um de nós
Prover um outro resultado

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O castelo indestrutível

Por Bruno Montarroyos

Era uma vez uma cidade onde existiam apenas duas famílias e uma deusa cega chamada justiça. A cidade produzia alimento suficiente para todos. Havia riqueza suficiente para que toda a gente vivesse muito bem. Mas o representante de uma das famílias, chamado Edrio Moreira, resolveu se apropriar de toda a riqueza da cidade. Invadiu as propriedades da outra família roubando-lhe tudo o que tinham. Construiu, então, para a sua família um castelo riquíssimo e vivia muito bem. À outra família, representada por um homem carinhosamente apelidado em um dialeto indígena, Pagacontas, restou construir para si um barraco com os destroços que sobraram no lixo do suntuoso castelo da família Moreira.

Certo dia, vendo a família castigada por uma grave fome, o senhor Pagacontas ficou à espreita da senhora Moreira, esperando um momento em que o destino pudesse lhe dar uma pequena ajuda. Foi então que ele a viu passar com sacolas cheias de alimentos. Aproximou-se silenciosamente e, em um só impulso, enfiou a mão dentro de uma das sacolas tirando-lhe uns pães e correu com todas as suas forças para levar àqueles seus o produto tão esperado. A deusa até então cega, dona justiça, fica momentaneamente curada, condenando o senhor Pagacontas à morte e toda a sua família à miséria ainda maior que a atualmente vivenciada.

Os personagens dessa história não são totalmente fictícios, nem tão pouco a história. Porque será tão difícil entender os motivos do senhor deputado Edmar Moreira ter sido absolvido pelo conselho de ÉTICA da câmara dos deputados? Afinal, roubar alimento para socorrer uma família passando fome é que é crime de verdade que merece punição. Desviar R$ 180.000,00 por ano só de um benefício chamado Verba Indenizatória, pago pelo povo brasileiro, a família Pagacontas, isso não é nada grave. O coitadinho não fez nada de mal.

Para ajudar a esclarecer um pouco mais essas dúvidas basta acessar o site: http://www2.camara.gov.br/transparencia/vi, onde é possível ver quanto cada deputado gastou por mês dessa verba. Claro que não devemos consultar de fevereiro de 2009 para cá. Deve-se consultar antes disso. Antes da bomba estourar. É possível pesquisar pelo seu estado e ver apenas os deputados que estão representando a sua terrinha. Talvez uma olhadinha nesses gastos esclareça um pouco do porque absolver o anjinho do Castelão. Quem pode atirar a primeira pedra? Quem arriscaria ser o próximo? Ouço uma voz dizer que se forem achados pelo menos 51 justos entre esses deputados, ainda pode haver salvação a essa Sodoma e Gomorra.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Quem matou Michael Jackson?

Por Bruno Montarroyos

É curioso observar a forma como se dá o jogo de poder no mundo em que vivemos. Informação é uma palavra-chave. A concentração dessa informação é uma realidade. São menos de meia dúzia de corporações controlando 90% dos meios de comunicação mundiais. E essas pouquíssimas e gigantes corporações demonstram estar de acordo entre si. Uma grande pergunta em um contexto como esse seria: É possível saber a verdade sobre as coisas?

Michael Jackson abusou sexualmente de algumas crianças, diz a grande mídia. Após a sua morte, alguma criança já adulta nega tudo afirmando ter sido obrigada pelos pais a sustentar a calúnia. Qual a verdade? Talvez não seja possível saber a verdade sobre o abuso das crianças, sobre a sexualidade do astro ou mesmo sobre a causa de sua morte. Mas algumas verdades estão bem na cara. Não importa a vida de quem seja destruída. Não importa a ética ou o bem-estar social em um mundo prostrado diante do seu maior ídolo: O capital. E quem detém o poder e a concentração da informação molda a verdade conforme a sua própria conveniência, da forma que lhe der mais lucro.

Um aclamado jornalista brasileiro chamado Aloysio Biondi, in memorian, afirmou que depois de 42 anos de jornalismo e tendo enfrentado a ditadura, nunca viu se mentir tanto como no jornalismo atual. No documentário The Corporation, uma publicitária, ao ser questionada sobre a ética em manipular crianças a se tornarem consumidoras compulsivas, responde que esse é o seu trabalho e se é bem feito não há necessidade de se considerar qualquer ética.

O lado mais triste de toda essa história é que qualquer produto só poderá se tornar um sucesso de vendas se houver quem o compre em massa. E parece que mentiras estão entre os produtos que mais vende, ao lado de boatos e fofocas. E se for a respeito de alguém famoso melhor ainda. As corporações da informação não tem qualquer interesse em saber quantas vidas serão leve ou gravemente prejudicadas. Só lhes importa o retorno monetário que a notícia propiciará. E nós, consumidores diretos ou indiretos desse produto corrompido, poderemos estar contribuindo fortemente com essa grave subestimação de nossas capacidades intelectuais.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Uma Viagem à Alterlândia


Por Bruno Montarroyos

Que cena espetacular aquela! Ônibus e bicicletas circulando lado a lado na mais perfeita harmonia. Não havia ciclovias. As mesmas estradas eram solidariamente compartilhadas por todo o tipo de veículos e o trânsito fluía livremente. Havia pouquíssimos carros particulares. Nunca pensei ver um transporte público tão eficiente em uma cidade tão grande como aquela. – Boa noite, senhor, é um prazer tê-lo aqui, disse o motorista do ônibus que acabara de entrar. Pensei que ele tinha me confundido com alguém importante. Logo depois perceberia que era a forma que ele tratava a todos, falando sempre com muita simpatia. Perguntei-lhe como é que eu poderia pagar, já que não vi o cobrador. Ele sorriu com uma expressão desconcertada e respondeu: - Já está pago, senhor: os impostos, lembra? Não discuti e logo sentei sem entender direito o que se passava. Desci numa parada em frente a um hospital e resolvi conhecer. Pela fachada pensei se tratar de um desses enormes hospitais particulares de luxo a que tem direito apenas aqueles que podem pagar por planos de saúde caríssimos. E de fato era um hospital de luxo. O atendimento era perfeito. Os funcionários pareciam estar realmente unidos no importante serviço de recuperação daqueles pacientes. Perguntei a uma moça que estava saindo se aquele era realmente um hospital particular. Ela franziu a testa e repetiu as minhas ultimas palavras em tom de interrogação: - Hospital particular? Senhor, perdoe-me, mas não existe hospital particular. Hospital é para todos, não pode ser particular. Saí daquele lugar e sentei em um banco onde havia um casal de velhinhos também sentados. Eles pareciam um casal de namorados e decidi interrompe-los um pouco para tentar sair daquele emaranhado de dúvidas em que me metera. Narrei-lhes a minha experiência no ônibus e no hospital e perguntei a eles se aquela cidade sempre foi assim. Eles me falaram que apenas os velhos poderiam me responder isso por experiência própria, pois teriam vivido em uma época em que as coisas eram bem diferentes. Disseram-me que tudo mudou quando o povo resolveu exigir que a carreira política fosse almejada com outras intenções e para isso estabeleceram algumas regras para as próximas eleições. Os candidatos eleitos para assumirem os cargos deveriam se adaptar a novas condições. Nenhum representante do povo pertencente aos poderes executivo, legislativo ou judiciário pode, enquanto estiver sob a investidura do cargo, se utilizar livremente de transporte particular, exceto por um dia em cada semana. Deverá utilizar a rede de transporte público como qualquer outro cidadão. Também não pode possuir plano de saúde e nem usufruir serviços de hospitais que não sejam públicos. Isso se aplica também à sua família. Seus filhos serão obrigados a estudar em colégios públicos e não terão qualquer prioridade na obtenção de vagas. E as condições impostas caminhavam nesse sentido de fazer com que os políticos dependessem do sistema que eles foram escolhidos para administrar. O povo decidiu isso porque não tinha sentido eleger representantes que não tivessem as mesmas necessidades do povo. E a partir daí os serviços públicos relacionados à educação, saúde, transporte, segurança, tudo enfim, começaram a melhorar e naturalmente caiu a procura pelos serviços oferecidos pela iniciativa privada, relegando-a ao esquecimento. Isso fez com que fossem reduzidos os desvios de verbas e outras formas ilícitas de ganhos pelos políticos, já que eles não queriam arriscar a si mesmos e aos seus dependerem de um serviço ruim na área da saúde, por exemplo. Aquele casal de velhinhos me disseram que até as eleições foram mais tranqüilas, sem muita disputa e as pessoas que se ofereciam como candidatos eram pessoas de fato comprometidas com o interesse de lutar por uma vida mais digna a todos. Quando acordei foi impossível não pensar: Já que os nossos impostos pagam passagens aéreas para esses nossos representantes e suas famílias passearem, vamos exigir que chegue às mãos de cada um deles passagens com destino a um mundo melhor para o povo a quem eles deveriam servir. Uma viagem que saia da Egolópolis onde eles estão até essa terra sagrada que conheci em sonho e que se chama Alterlândia.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Raio de Sol e Pernambucanidade


Por Bruno Montarroyos

Já passava da meia noite quando me preparava para dormir. A música de fundo era um som festeiro fora dos arraiais dos meus sonhos. Ao ouvir a introdução de "Liberdade" de Marcelo Camelo executado pelas habilidosas mãos de Dominguinhos ao Acordeon pensei: "Marcelo Camelo numa quadrilha junina é bastante inovador e tem a cara de uma amiga minha". Não deu outra e logo ouvi a identificação daquele grupo sob as palavras de seu marcador, irmão da minha amiga Leilane Nascimento: - Raio de Sol ! Estava claro! Era de fato a quadrilha Raio de Sol, da qual participa minha querida amiga, Pernambucana de corpo e espírito, de cabeça e de pés. A alguns passos de minha casa estava a possibilidade de rever essa figura rara que mora provisoriamente em Vitória da Conquista na Bahia. E lá estava ela, bela como o próprio nome da quadrilha. E que espetáculo para aquelas pessoas que estavam presentes ali - Incluindo o seu marido, meu amigo Vandré, gente boa demais. Foi uma verdadeira exaltação à cultura pernambucana. Uma experiência mística, anunciadora de sentimentos os mais diversos, conduzidos por uma beleza que só pode ser expressa e coerentemente vivenciada por nós, esse povo sofrido e festeiro, trabalhador e sonhador, caloroso e sensível. O repertório nos convidava a uma viagem guiada pelas aves nordestinas. Quem recebeu os viajantes foi também quem se despediu no final. Essa ave-homem ou homem-ave, que conta a história do homem com a beleza sonora do canto de uma ave: Patativa do Assaré. E as aves nos conduziram por esses caminhos do nordeste, que ficam entre a luta e o festejo de um povo riquíssimo e honrado. Caminho entre os descaminhos dessa vida, entre a sêca e as enchentes, entre as multidões e a saudade. Como diria Cabral, não o Pedro mas o João, Não o Álvares mas o de Melo Neto, entre a morte e a vida Severina.

Entre o forró, maracatu, xote, baião.
Entre a barriga vazia e a enxada na mão.
Entre as asas brancas e os sabiás
Entre assuns pretos e carcarás.

E ao ser devolvido pelas aves ao chão daquela palhoça
depois de tanta magia fiquei a pensar
Será ousadia a uma conclusão chegar:
Que menos pernambucano é aquele que não estava lá?

Mas não fique triste porque as aves voltaram ao meu encontro com a maior alegria de anunciar:

A união nordestina de aves culturais
Antes que as fogueiras se apaguem
Resolvem presentear com mais uma viagem
Ao que quiser se pernambucanizar mais

Dessa vez com muito mais beleza
Através da nossa natureza
No destino nordestinodescortinar

Místicos encantos e magia
Nordeste e nordesteiros
Asas, aves e puleiros
Música, dança e harmonia

E numa anilha que uma delas carregava, letras de forma anunciavam data e local de partida:
Domingo, 28 de junho, dez e meia da noite
Recife/PE, Sítio da Trindade
Quadrilha Raio de Sol e Pernambucanidade


quarta-feira, 17 de junho de 2009

Omissão ou Missão

Por Bruno Montarroyos

Esse é o retrato da sua omissão ou missão?
O AMARGO, a DOR de OUVIR, FEDE fingir que não VÊ
Que mundo é esse que herdamos do seu?
Que mundo vamos deixar?
Se no meu vôo só há espaço pra um lugar

Há certas coisas que tento, mas não dá pra entender
Deixar sofrer e morrer ou matar seu irmão, seu próprio irmão
Todo o ouro em um só lugar
O barco vai virar
E quem mais peso tiver, primeiro vai afundar

As pessoas, a maior riqueza
Cada um, o melhor lugar

Se o mundo inteiro pudesse ouvir o clamor
Se o zero vírgula e o nove tivessem o mesmo valor
A gente vamo pru mermo lugá
E o que nóis vai levá?
A violência começa no meu modo de pensar

Mundo digital
Realidade presente do que era futuro utópico no passado analógico
Multi-tarefas, multi-função
O que um faz hoje era trabalho para um batalhão, para um batalhão
E com toda essa expansão tecnológica
Expandem-se os espaços entre nós
E a competição espacial rumo ao comodismo social
Me colocam no centro unitário de minha própria atenção
Um dia tivemos jovens lutando para tudo melhorar
Hoje o sofrimento humano é celebrado com pipoca e guaraná
Assassinato é jogo de criança
Fome é entretenimento de jornais
A miséria de tantos de mim recebe apenas medo, desprezo

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Sobre Crianças em situação de risco ou "Viajando na Maionese" (Segundo Cacau, minha futura holder)

Por Bruno Montarroyos

Um dia eu estava em um workshop de bateria com um baterista mundialmente conhecido, chamado Johnatan Moove. Ele demonstrava uma habilidade extraordinária naquele instrumento. E a sua bateria era daquelas enormes, cheias de recursos. Enquanto ele tocava, previamente combinado algumas pessoas iam lentamente tirando as peças da bateria. Tiravam-lhe tudo exceto os três componentes básicos: O bumbo, o Chimbal e a caixa. E ele tocava com a mesma maestria. No final ele explicou: Não precisa ter um instrumento cheio de recursos para ser um bom músico. O bom músico saberá trabalhar com o que tem em mãos e fará disso o suficiente para obter os melhores resultados. Aquilo me chamou bastante atenção. Eu lembro. Como gosto de lembrar das coisas. Acho que a atividade de lembrar é uma das que mais me fascina. Quem não gosta de trazer à memória boas lembranças? Lembro que teve um acampamento desses de igreja que a banda teve uma discussão e terminou que os instrumentos musicais não foram levados ao acampamento. O ambiente era de extrema desolação. Nessa época eu era muito animado, empolgado. Procurei logo animar os músicos: -Não se deixem vencer, falei. Propus fabricarmos instrumentos ali. E logo depois estávamos com alguns instrumentos que nós mesmos fizemos com bambus, madeira e outras coisas que não lembro bem. Esse exercício de voltar no tempo para novamente experimentar, ao menos nas lembranças, aquilo que um dia nos deu prazer. Eu quero falar sobre crianças em situação de risco, mas quando tento me concentrar nesse assunto é impossível fugir a alguns pensamentos. Afinal, o que é uma criança em situação de risco? As cartilhas me dirão que são aquelas crianças que estão expostas a situações que possam causar danos à sua saúde fisica ou emocional, ao seu desenvolvimento, etc. A situação de risco seria então esse contexto onde uma criança pode ser coptada mais facilmente para a prostituição ou para o tráfico de drogas, por exemplo. São muitos os casos de crianças exploradas nessas atividades. E o que nós podemos fazer diante de um contexto aparentemente tão difícil de se resolver? Penso primeiramente em tentar entender o que provoca essa situação de risco. Essa situação de risco a que as crianças estão expostas é uma realidade generalizada? O que seriam crianças em situação de risco em uma tribo indígena que ainda não foi desapropriada pela nossa modernidade? Existiriam essas crianças? Existiria essa situação de risco nesse contexto? Creio que não. Penso que a situação de risco que falamos é o resultado de coisas que inventamos. Somos muito criativos. E com essa criatividade criamos muita coisa boa. Mas hoje também é criada muita futilidade que querem empurrar-nos goela abaixo. Esse mercado capitalista quer nos convencer que a nossa felicidade está exatamente em algo que ainda não temos. E assim vivemos. Sempre em busca dessa felicidade que virá na próxima compra. Todos querem ter isso e aquilo que o outro tem. E penso que muito dessa "situação de risco" que algumas crianças se encontram tem a ver com isso. A maioria das crianças que entram no mundo da prostituição ou do tráfico de drogas, por exemplo, o fazem geralmente motivados pela necessidade de "ter" também os produtos que todo mundo tem. Mata-se para conseguir o dinheiro para comprar aquela bermuda de marca ou aquele aparelho do MP da vez. Eu volto no passado e me lembro que os melhores presentes que tive foram fabricados pelo meu pai ou por mim mesmo. Lembro de um caminhãozinho de madeira que ele me deu. Ele mesmo fabricou. Aquele ato de fabricar os próprios brinquedos me inspirava e me tornei uma criança bastante criativa. Inventando brinquedos e brincadeiras. Acho que hoje poucos pais fabricam brinquedos para os seus filhos. Talvez tenham medo de seus filhos não gostarem. Afinal a TV diz o que é legal dar de presente. E nós temos que aceitar. Gosto de lembrar desses brinquedos fabricados em casa muito mais do que dos que foram comprados. No futuro muitas crianças terão lembranças bem diferentes das que tenho da minha infância. Lembrarão de presentes como playstation, mp3, celular... Acabei de ler uma frase na camisa de um rapaz que dizia: "A máquina não é mais importante do que as mãos". Imagino que a camisa dele deva ter sido costurada à mão. Lembro que nós costumávamos comprar tecidos e entregar a costureiras para fazer-nos roupas. Era um trabalho manual e muitas pessoas viviam de trabalho assim. Há um versículo em Eclesiastes 2.24 que diz "Vejam: a felicidade do homem está em comer e beber, desfrutando o produto do seu trabalho". Não quero dizer para voltarmos tudo como era no passado, mas já parou para pensar? Todos trabalhando, plantando, cuidando dos bichos e vivendo do produto direto do próprio trabalho como foi um dia? Onde estaria a situação de risco? Infelizmente não é possível voltar a sociedade inteira para isso, mas vale lembrar para pelo menos saber avaliar melhor a importância das coisas. Saber o que é importante mesmo e o que não é tão importante. Uns plantavam, outros cuidavam de bichos, outros costuravam, cada um era bom em uma arte e a ensinava aos seus filhos. Mas como hoje preferimos comprar as coisas daquela marca legal que passa na TV, aí existe cada vez menos artistas. Preferimos usar as coisas que são fabricadas aos milhões por máquinas que tiraram empregos de muita gente. Porque assim não nos sentimos inferiores ao que já tem esse produto. Como vou usar uma roupa de costureira se todos estão usando aquela marca legal? Assim quem pode pagar pela marca famosa paga. Quem não pode tem que arrumar alguma outra forma de ter. Lembro quando eu, meu pai, minha mãe e minha irmã saíamos na rua cada um com um pano nas mãos e gritando: - Cai, cai, tanajura, tua bunda tem gordura !!! Lembro das brincadeiras na rua enquanto eles estavam sentados em cadeiras também naquela rua de barro. O que mais me traz alegria nessas lembranças é a presença deles ali, juntinhos conosco, participando. Não existe coisa mais rica nesse mundo do que a nossa presença junto àqueles que amamos. Essa semana eu estava revendo fotos daquela nossa casa em Caetés. A casa tinha um pequeniníssimo banheiro, uma cozinha e uma sala que também nos servia como quarto da família inteira. Cercada por uns sarrafos de madeira, com portão e tudo. Muros não existiam. Eram cercas de madeira ou nada. Quando chovia era uma lama só na rua. Mas como éramos felizes. Aprendi desde cedo a viver muito bem com o que tinha. Se meu pai não podia comprar um brinquedo legal da moda que eu via na tv ele fazia um brinquedo como o caminhãozinho de que falei. Se não podíamos comer de todas as guloseimas que existem, comíamos alegremente do que podíamos. Quando meus pais podiam, compravam roupas, mas usávamos também roupas que recebíamos de parentes numa situação melhor. Roupas que não usavam mais. Os "nãos" que tive durante a minha infância me ensinaram bastante. Nenhum pai ou mãe deveria se envergonhar quando não tivesse condições de dar um presente "legal" daqueles que passam nos comerciais da TV. Deveriam sim, se envergonhar de dar tudo o que os filhos pedirem. Precisamos aprender a ter e a não ter as coisas. Mesmo se eu tivesse condições o suficiente para dar tudo o que minhas filhas me pedissem eu gostaria de ter sabedoria para dizer não. Elas precisarão aprender a não ter algo que querem. Se todos conseguirmos educar assim os nossos filhos, só isso significaria uma “situação de risco” bem menor para as crianças empobrecidas. Em meu texto “Penumbra” falo sobre a luz de uma vela. Se muitas pessoas estão reunidas em um galpão muito bem iluminado durante a noite é possível ver a todos. Mas veremos todos de uma forma muito superficial por haver muitas pessoas. Umas perto outras longe, mas muita gente, muita informação. Se apagássemos todas as luzes desse ambiente e deixássemos uma vela próximo de uma dessas pessoas da multidão seria provável que muita gente daquela multidão perceberia pela primeira vez essa pessoa iluminada pela luz da vela. Como pode uma luz tão pequena e fraca mostrar detalhes que todos os refletores outrora acesos não mostravam? E se essa pequena luz fosse passando de mão em mão, devagar, cada pessoa teria o seu momento de ser o foco de todas as atenções. Os detalhes das unidades seriam mais intensos do que quando todos estavam à vista ao mesmo tempo. Os instrumentos de que falei no começo, improvisados, simples, o caminhãozinho de madeira que o meu pai me deu de presente e a vela de que falo agora, todos fazem parte do mesmo mundo: O mundo da simplicidade. Todos me dizem que é possível ter o máximo de prazer na vida, viver intensamente, viver bem e feliz, sem precisar ter muita coisa. Se faltar uma bateria cheia de recursos na nossa vida, é possível tocar a vida com um caixote simples, desde que não falte a alegria musical em nosso viver. Se faltar dinheiro para dar presentes, é possível fabricar algo, de coração, ainda que seja uma carta dizendo àquela pessoa o quanto a estimamos. Não deixe de se fazer presente à comemoração de alguém por não ter um presente legal. Ora, se não tivermos todos os produtos que a modernidade da eletricidade e eletrônica trouxeram para encher o nosso dia-a-dia de refletores, é possível que a luz de uma pequena vela possa nos proporcionar uma visão ainda mais intensa. A vela aqui representa as coisas que já temos em mão, mas que as muitas coisas que ficamos interessados em ter nesse mundo não nos permitem vê-las. São aquelas pessoas que estão perto de nós, é a saúde, qualquer coisa que já temos. Espalhemos a notícia. Podemos viver bem agora, com o que temos, sem ter grandes ambições de ter muitas coisas para que possamos ser felizes. Espalhemos a notícia. Se todos conseguissem enxergar a beleza, a intensidade da luz de uma simples vela, teríamos a mesma situação de risco de uma tribo indígena: Nenhuma. E assim não haveriam crianças em situação de risco. Desculpas aos que esperavam dados estatísticos e informações atualizadíssimas sobre as crianças em situação de risco em nosso país. Mas imagino que essa informação esteja muito mais disponível por aí do que essa que tentei passar. E repito: o “risco” do qual falamos é exatamente a necessidade do “ter”. Quem já tem tudo não está na “situação de risco”. Só quem quer ter. Crianças em situação de risco são crianças que querem “ter” ou que os pais querem “ter”. E esse "ter" não é só o da subsistência. E essa necessidade do "ter" cresce à medida que os que já têm alguma coisa querem ter cada vez mais. E para isso querem convencer todos nós a querer também ter cada vez mais. E um mundo onde ninguém consegue estar bem com o que já tem é um mundo de situação de risco. E a minha conclusão é que o fato de existirem crianças em situação de risco no mundo em que vivemos explica-se pela existência de adultos em situação de ganância.

Parte do sermão na Primeira Igreja Batista em Bultrins em 07/06/2009

sábado, 30 de maio de 2009

Penumbra

Por Bruno Montarroyos

Uma vela acesa ao meu lado
Traz uma faísca do passado, amor
Luz silenciosa que permeia
De beleza tudo o que rodeia

A escuridão que esconde os seus
Tesouros mais secretos
Ofuscados pelo excesso
Do Fulgor da luz dos refletores
Sóis que roubam a essência
Mais profunda dos detalhes
Que essa penumbra pode dar


Sentado à meia escuridão, parcialmente interrompida por uma pequena vela acesa sentada ao meu lado no sofá de casa. Percebo que os objetos ao redor da luz de uma vela trazem uma beleza que uma luz mais intensa não pode proporcionar. A quantidade de informações que se tem dos objetos é bem menor sob a luz de uma pequena vela, mas a profundidade das informações é inigualável. Uma luz elétrica de forte intensidade como as que usamos apresenta todos os objetos ao seu redor no mesmo plano. Tudo muito bem iluminado. Dependendo da quantidade destes, ficamos à nossa frente com um sem-número de coisas com as quais podemos nos distrair. São fontes iluminadas implorando por nossa atenção. Uma vela acesa não tem um alcance luminoso capaz de descobrir a nós tudo ao mesmo tempo. Ela não tem o poder de simular na noite a luz do dia. Para descobrir o universo ao nosso redor é preciso que nos desloquemos conduzindo a luz da vela junto a nós. E assim a sua luz nos apresentará os detalhes de cada objeto. Detalhes que passariam despercebidos se tivéssemos todos ao mesmo tempo à nossa mira. Uma descoberta gradativa forçando-nos a dedicar mais atenção aos objetos mais próximos revelados pela fraca luz. A vela geralmente traz consigo o silêncio. A pouca luz, poucas coisas para se distrair por vez, junto com o silêncio, trata-se de um convite para viver o presente com mais intensidade. Sim porque se nos imaginarmos numa caminhada. Uma estrada plana, longa, cheia de atrações, pessoas, paisagens, oportunidades, experiências diferentes. Imaginemos essa caminhada à plena luz onde você consegue ver as coisas que só conseguirá alcançar em algumas horas. Podemos dizer que você está enxergando o seu futuro. Seus olhos estão já se distraindo com motivos que só no futuro estarão próximos a você. Você os vê bem longe na estrada à sua frente. E é muito provável que a distração com essas coisas pertencentes ao seu futuro tire de você a oportunidade de enxergar e participar de tudo o que já está diante de você. O seu presente. Essa mesma caminhada na escuridão, parcialmente interrompida por uma pequena vela acesa, lhe obrigaria a reparar mais naquilo que está mais próximo. Pois o futuro só seria revelado quando a pequena luz estivesse presente. Quando você pudesse de fato participar daquele momento aí sim ele estaria à sua vista. Enquanto isso você seria obrigado a viver o presente com tudo o que ele oferece. Nós humanos somos muito criativos. Criamos tanta parafernalha, das quais nos tornamos dependentes, que muitas vezes é difícil saber dar importância às coisas certas. Um dia já vivemos satisfeitos apenas com comida e companhia. Hoje nós temos à nossa vista uma quantidade e variedade enorme de coisas que queremos ter para que nos consideremos realizados. Talvez uma pane global que roubasse toda a energia da terra conseguise nos dar a oportunidade de reaprender quais são as coisas mais importantes. Já simulou como seria? Nenhuma energia elétrica. Um mundo sem luz elétrica, sem TV, sem rádio, sem computadores, sem celular... Assim aprenderíamos a dar mais valor a tudo aquilo que está bem pertinho de nós, incluindo aqueles que nos amam e a quem amamos também.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Retratação

Por Bruno Montarroyos

Cláridas belezas!
Já não vejo
As cores-luz do dia
Lembranças de alegria
Pegadas no vazio
Já não vivo

Sugaram-me as forças
Já não fujo
Tornei-me logo em réu
De um crime contra os céus
No agonizar da dor
Já não morro

Não vejo, não vivo, não fujo
Já não sou
Moldado à vontade alheia
Não morro pelo que corre na veia
Convenientemente político
Já não Eu

20/07/2004

domingo, 1 de março de 2009

A Epopéia de Carpenaldo: Uma jornada em busca da humanidade perdida

Por Bruno Montarroyos

PARTE I - Tábua II

Os Monges


Já passavam das cinco da tarde quando Carpenaldo voltava do Alto da Sé, em Olinda, em direção à sua casa. Descia pela ladeira da Travessa Luiz Gomes, caminhando, na companhia de seu amigo mais velho Dionísio. Passaram pela pequena praça Dantas Barreto e em cinco minutos já estavam na esquina da Rua do Sol com a Floriano Peixoto, onde ficava a casa da avó de Naldo, sua casa também. Lá o aguardava dona Josefina, acompanhada de duas visitas inesperadas. Eram dois homens trajando vestes de monges. Vestiam uma espécie de roupão grosso cor de vinho escuro que descia até os seus pés e com mangas compridas e folgadas. Uma corda grossa os abraçava à altura de suas cinturas, fechando o roupão como um quimono. Junto ao pescoço caia uma cobertura para a cabeça, semelhante às encontradas em capas de chuva. Após se despedir de Dionísio, Naldo se depara com essas duas figuras em sua casa, cuja aparência lembrava a própria caricatura da morte, exceto pela falta da foice peculiar que carrega à mão. - É ele, disse Dona Josefina aos dois visitantes enquanto apresentava o seu neto. - Venha cá, menino, estes homens estavam te esperando. Você irá com eles. Acho que vai ser o melhor para você. Carpenaldo ficou estático. Todo o seu sangue parecia ter fugido de repente. Não poderia ser uma experiência real que estava vivendo naquele momento. Primeiro não sabia explicar os sentimentos que tomaram o seu pequeno corpo quando se aproximou daqueles dois homens estranhos, mesmo antes que a sua avó pronunciasse aquelas palavras sobre a sua iminente partida. Ao se aproximar daquelas visitas misteriosas Naldo olhou rapidamente para trás com a intenção de vislumbrar ainda o distanciar de seu amado amigo Dionísio. Mas foi tomado por um sentimento repentino de repulsa daquele companheiro até tão recentemente venerado. Olhava em volta para tudo aquilo que outrora provocara dentro de si uma explosão de prazeres dos sentidos, mas tudo agora parecia sem vida, sem cor, sem magia. E toda essa mudança surgiu instantaneamente quando ele chegara à presença daqueles dois personagens insólitos. Ao lado desses sentimentos repulsivos diante do seu mundo outrora belo, juntava-se um sentimento de profunda admiração e atração pelos seus visitantes aquele dia. Parecia emanar deles uma aura encantada que trazia à Carpenaldo, ao mesmo tempo, uma sensação de confiança irrestrita, bem como de um desejo irresistível de segui-los para onde quer que fossem. Ao ouvir a sua avó anunciar que ele deveria partir com aqueles desconhecidos, apesar de toda a força que o impulsionava àquele destino, ficou a se perguntar as razões de dona Fina em entregá-lo tão repentinamente a um futuro tão duvidoso. Lembrou-se logo de um fato acontecido por aqueles dias e que poderia muito bem ser a explicação que tanto precisava naquele momento. Voltava de mais uma de suas aventuras com o seu companheiro inseparável Dionísio. Ao entrar em casa sua avó teria percebido a possibilidade de seu neto indefeso estar portando material impresso não adequado à sua perfeita educação cristã, muito menos à sua idade. Naldo teria passado por ela, naturalmente, sem medo de estar contrariando quaisquer preceitos morais - se é que possuía alguma idéia sobre essas coisas, portando uma revista com fotografias de sexo explícito, fruto de uma de suas conversas com o seu amigo Baco – assim chamava Dionísio por achar complicado demais a pronúncia de seu nome polissílabo. Recolhido em seu canto no interior mais profundo daquela casa, entre os ecos dos motores que roncavam na Rua do Sol e o silêncio que conduzia a calma melodia do encontro das ondas com aquela costa ali tão perto, Carpenaldo viajava por entre as páginas mágicas da mais antiga arte dos prazeres humanos. Era como um descortinar de um mundo até então desconhecido, místico e anunciador de uma ludicidade tão intensa, profunda e ilimitada quanto o seu estado de admiração diante de tamanha novidade. E foi exatamente no auge dessa incandescência sensitiva que o surpreendeu o som ensurdecedor de censura da sua avó protetora que até então custava a acreditar em cena por demais assombrosa: -O que é isso, garoto! Que coisa horrorosa é essa que você está vendo? Inocentemente, com a certeza incontestável de que vó Fina estaria bastante equivocada quanto ao conteúdo do material em suas mãos, Naldo, recuperando-se do susto provocado por aquele estrondo sonoro de furor, responde com firmeza e simplicidade: -Calma, vó, pode olhar melhor aqui e vai ver que não precisa ter medo. São apenas fotos de gente grande brincando. Baco me disse que o nome dessa brincadeira é sexo. Disse mais: Que todas as pessoas e até os animais foram feitos quando o papai e a mamãe de cada um estavam brincando disso. É verdade, vó, que se meu pai e minha mãe nunca tivessem brincado de sexo eu não estaria aqui hoje? Bastante desconcertada pelo embaraço desse momento, dona Josefina retoma o fôlego para tratar com a severidade necessária aquele pesadelo. –Olha, menino, quero que saiba que isso que você fez é muito feio. Você não pode ficar vendo esse tipo de coisa. Papai do céu acha isso muito feio. Me dê pra cá logo essa praga e nunca mais me venha com uma maldição dessa para esta casa. E o garoto ficou perdido entre a tranqüilidade com que seu colega lhe apresentara aquele material e o desespero reprovador de sua avó tão querida. Estava agora explicado. Esse teria sido o motivo pelo qual a sua velhinha do coração o estaria abandonando àqueles homens. Aquele fato deveria ter realmente representado para a sua avó uma falta gravíssima, imperdoável, condenando-o à expulsão daquele casto lar. Lembrou-se ainda de como a sua teimosia teria ultrapassado todos os limites quando resolveu questionar Dona Fina, voltando ao mesmo assunto proibido, dias depois do ocorrido. –Vó, hoje eu vi um cachorro abraçando uma cadela por trás. Quando me aproximei, percebi que estavam brincando de sexo, igualzinho aos homens e mulheres naquela revista de meu amigo Baco. Aquela que a senhora queimou. Eles olharam para mim, mas continuaram. E tinham outros cachorros por perto, até filhotinhos. Ô, vó, não foi papai do céu quem fez os cachorros também? Por que eles não se escondem quando brincam de sexo, já que é tão feio e papai do céu não gosta? Por que papai do céu deixa eles brincarem na frente de todo mundo, até dos filhotinhos, e eu não posso ver nem fotos de gente grande brincando igualzinho? Lembrou-se da surra que tomou aquele dia. Dona Josefina precisava castigá-lo pela teimosia, apesar de ficar surpresa com as colocações do garoto, que a deixaram como que a viajar diante de observação tão óbvia que só poderia sair da mente virgem de um garoto de oito anos. Ora, dizemos que os animais são irracionais. O que isso significaria? Que assim como nós, humanos, temos a liberdade de ação e pensamento pelo uso da razão, os demais animais, esses irracionais, são escravos dos seus próprios instintos. As nossas ações, humanas, seriam fruto das decisões de nós mesmos, humanos. E as ações dos animais irracionais seriam fruto das decisões de quem? Ah, sim, de quem os programou. De quem eles herdaram seus instintos. Isso quer dizer que os seres humanos criaram suas próprias regras, já que tinham liberdade para isso, enquanto todas as demais espécies se mantiveram firmes nas regras naturais de seu criador.
As lembranças desses dois fatos trouxeram à Carpenaldo a razão que ele tanto procurava para agora estar deixando aquele lar sob as ordens de sua vó Fina. E seguiu o seu caminho, com seus dois novos companheiros, para viver nova fase de sua vida. Sem entender bem o porquê de estar profundamente atraído para aquele novo destino, incerto e desconhecido.

sábado, 24 de janeiro de 2009

A Epopéia de Carpenaldo: Uma jornada em busca da humanidade perdida

Por Bruno Montarroyos

PARTE I - Tábua I

A visita de Dona Taná


Aquele teria sido apenas mais um daqueles finais de tarde em que o descolorir do dia se precipita sem timidez. Os mares de Olinda pareciam querer fugir através de suas estreitas ruas. Balançavam freneticamente numa dança como que de uma grande multidão a experimentar as atividades mais rudimentares de acasalamento. A respiração ofegante daqueles milhares de amantes reunia-se contra toda a costa, varrendo dali qualquer pretensão de presença humana. Apenas as lágrimas divinas de comoção ainda não se juntara à paisagem, misto de violência e extremo prazer. As únicas lágrimas no momento pertenciam a Carpenaldo, que com os olhos fitos àquela orgia marítima, as sentia bailar sobre o seu rosto miúdo em direção aos seus ouvidos antes de se esvaírem aos céus. Aquele garoto de apenas oito anos não demonstrava nenhum temor diante de cena tão sombria. Estava só. Estava como se não estivesse lá. Imóvel e curioso acerca dos fatos que acabara de presenciar. Bem perto dali, numa das esquinas da rua por trás daquela banhada pelo mar, estava a casa de seus avós. Era a casa onde Carpenaldo morava desde que sua mãe o abandonou. Mas sobre os seus pais teremos oportunidade de conhecer mais tarde. Nessa tarde a novidade não era aquele mau tempo e sim uma visita inesperada que mudaria para sempre a história de Carpenaldo Diemedes dos Santos, seu nome de batismo. Era a primeira vez que o garoto conhecia de perto a velha hospitaleira e gentil que nunca negará a um ser qualquer que seja, até ao mais desprezível, um cômodo que lhe sirva de descanso: A morte, a velha Taná, apelido que tomo emprestado de sua correspondente do grego antigo tanatos. Dona Taná resolveu visitar o avô de Carpenaldo naquele não tão belo dia. Penso até que teria sido exatamente a confusão nos pensamentos do garoto naquele momento a causa de tamanha agitação no céu e no mar aquele final de tarde. E sentindo-se convidado pelo espetáculo que ele, sem o saber, teria acabado de criar, estava ali, sozinho, mergulhado no mais profundo de si mesmo. Assaltavam-lhe as palavras da avó: - Meu filho, assim o chamava, não se preocupe, ele está com Deus e agora viverá para sempre. Não compreendia o que isso queria dizer. Por que o seu avô não mais lhe responde quando o chama? Repetia diversas vezes a mesma frase mágica e infalível que transformava o seu avô em criança novamente: - Nem me pega hoje não, vovão gordão! E saía correndo desembestado para se livrar da fera que acabara de acordar. Mas a fera desta vez permanecia imóvel em sua cama como se estivesse aprisionado a um encantamento que o teria petrificado. As palavras “...e agora viverá para sempre” proferidas pela sua avó não o deixava em paz. Não conseguia encaixá-las devidamente na imagem inerte daquele corpo que um dia fora o seu avô. O mar sombrio de dúvidas experimentado por Carpenaldo nesse dia refletia simplesmente aquela antiga angústia humana que atormentava os nossos antepassados como a nós hoje. Afinal, quanta vida existe depois da morte? Quanto é para sempre? Não, infelizmente não saberia responder a essas questões. Mas há uma outra que me arrisco palpitar uma resposta: Quanta morte existe após a vida. Não responderia eterna porque não me sinto capaz de conceber tal conceito, eternidade. Mas depois de uma vida há morte o suficiente para durar ao menos toda uma vida de outro alguém. A morte do avô de Carpenaldo duraria para esse garoto todo o resto de sua vida, depois desses seus oito anos vividos ao lado daquele vovão gordão. Não sei quanta vida pode haver depois da morte, mas sei quanta morte sucede uma vida. Um dia Carpenaldo será confrontado pela primeira vez com a pergunta-chave de sua história: Quanta vida deve ornamentar uma vida para que a visita da Dona Taná não seja a uma vida já sem vida? Carpenaldo não teve oportunidade de conhecer os Avós de seus Avós. Eles já haviam morrido há pelo menos uns cinqüenta anos. Um dia eles estarão mortos a mais tempo do que o tempo que ficaram vivos. A morte aparentemente é bem mais longa que a vida. O garoto volta então para sua casa como uma pessoa bem diferente. Nunca mais será o mesmo. Por várias vezes ainda presenciará a visita da velhinha Taná. Até o dia em que ele próprio procurará em seus seios abrigo. Mas antes disso encherá de cores os seus dias, de luzes o seu caminho, de grandeza as menores coisas, enfim, encherá de mais vida a vida.
Assim inicia a jornada de Carpenaldo, que aos oito anos conheceu a morte e dela nunca mais esquecerá.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O Evangelho Fora da Religião

Por Bruno Montarroyos

...os problemas sociais da atualidade e a forma como se relacionam entre si e como interagem localmente e globalmente. Investigaremos expressões sociais de teor profético advindas de movimentos políticos, midiáticos, artísticos e musicais da atualidade, comparando a voz e atividade profética nos textos bíblicos a essas expressões... VEJA ESSE TEXTO NA ÍNTEGRA EM: http://sites.google.com/site/bmontarroyos/Home/Monografia.pdf?attredirects=0

Monografia entregue em 2006 à Universidade Católica de Pernambuco por Bruno Montarroyos.

ASSUNTO: Mídia Coorporativa / Mídia Independente, Atividade Profética, Evangelho, Opressão, Globalização.

Juventude e Alienação Religiosa

Por Bruno Montarroyos

O ritmo acelerado de mudanças no tempo em que vivemos é alvo de atenção, exploração e uso de todas as áreas de interesse da vida humana. O desenvolvimento tecnológico, o avanço dos conhecimentos científicos na biologia, medicina, o exame de DNA, o DVD e as músicas em MP3 são pequenas amostras de tudo o que temos presenciado neste mundo que corre, digo, voa do analógico para o digital em uma velocidade cada vez maior... VEJA O TEXTO NA ÍNTEGRA EM:
http://sites.google.com/site/bmontarroyos/Home/juventude_e_alienacao_religiosa.pdf?attredirects=0

Monografia entregue ao Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil em 2003 por Bruno Montarroyos.
ASSUNTO: Religião, Preconceitos, Sociedade.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

A Inovação no Brasil e o cenário internacional

Por Bruno Montarroyos

Diante desse novo cenário de competitividade internacional onde estará o Brasil e o seu sistema nacional de inovação? De que forma o nosso país tem respondido às significativas mudanças das últimas décadas e como tem se projetado no cenário internacional?... LEIA O TEXTO NA ÍNTEGRA EM: http://sites.google.com/site/bmontarroyos/Home/InovacaoBrasileira.doc?attredirects=0

Artigo entregue à disciplina Política Internacional do mestrado em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco. Por Bruno Montarroyos.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Devaneios

Por Bruno Montarroyos

É curioso observar como tudo ao nosso redor está intimamente ligado à forma como percebemos e vivemos a vida. O texto que se segue são devaneios sem uma finalidade específica. Tão somente devaneios.
Ao passar de ônibus por algumas das ruas do centro do Recife fiquei, como de costume, observando a beleza arquitetônica de alguns prédios muito antigos. Os detalhes suaves e delicados em suas fachadas trazem aos olhos e à alma um prazer indescritível. São desenhos tão belos. Com certeza deve ser bem trabalhoso fazer tantos detalhes em uma construção. Bem diferente da sensação que se pode experimentar ao olhar as construções mais modernas, onde as leis de economia de espaço e dinheiro, praticidade e funcionalidade são mais importantes que a singeleza estética. Afinal, para quê tanto detalhe na fachada de um prédio que só serve pra se ficar admirando. Não é útil para nenhuma outra coisa. Dá trabalho construir dessa forma. Dá trabalho cada vez que precisa pintar. Os serviços de pintura são muito mais caros em prédios com desenhos e detalhes bonitos do que em prédios simples e retos.
Fiquei a pensar: De fato é mais racional construir rápido e barato, reduzindo custos, facilitando as manutenções e maximizando os lucros.
As palavras rápido e lucro são de fato palavras de ordem em nossa sociedade do século XXI. Já não basta acesso à internet, agora precisa ser internet rápida (Banda Larga). Não basta poder comer na rua para não precisar voltar em casa entre turnos de trabalho, precisa ser fast-food.
Com essa tendência universal criamos novos paradigmas sociais. Agora não só comida rápida, comunicação em tempo real, ou leitura dinâmica, mas surgiram os amigos rápidos, diálogos rápidos, relacionamentos rápidos, sexo rápido (ou rapidinha). Tudo precisa ser instantâneo, imediato. Não temos mais tempo para cultivar amizades profundas e duradouras. Não temos mais tempo para longas conversas e limitamo-nos a curtos diálogos, geralmente superficiais. Temos muito mais amigos, é verdade. Mas vivemos as nossas amizades com muito menos intensidade. A leitura dinâmica nunca servirá para ler poesias porque é impossível experimentar as sensações de uma leitura poética em um ritmo acelerado. Já imaginou alguém declamando uma poesia como um locutor esportivo narra uma partida de futebol no rádio?
O lucro é da mesma forma a bola da vez. Como poderemos ter mais lucro? Como será mais barato? Na esfera pública das licitações é o pregão, agora eletrônico, que garante o melhor preço de compra. Isso pode significar baixos salários e condições de trabalho escravo na outra ponta, mas o que importa é comprar mais barato.
Com certeza é mais barato construir um prédio moderno que um prédio com detalhes coloniais. Será também mais barato alimentar-se tão somente de pílulas que contenham apenas o que for necessário ao organismo, quando isso for possível. Mas tais pílulas jamais poderão nos trazer os prazeres que as mais criativas e deliciosas guloseimas podem trazer. Será possível um dia programar a nossa audição apenas para o que nos for útil? Só ouviríamos o que quiséssemos e quando quiséssemos. Programar nossos corpos para não sentir dor? Escolheríamos apenas as sensações de prazer. Mas haveria prazer sem a dor? Poderíamos configurar nossos olhos para não ver o que pode nos ser nocivo? Jamais testemunharíamos violência, injustiça, agressão, acidentes e tantos outros fatos lamentáveis. Mas também não poderíamos exercer a nossa sensibilidade a essas coisas e até mesmo lutar contra elas. Programaríamos nossos narizes apenas para os prazeres olfativos? Tudo isso seria muito mais prático.
Existem dimensões em nossa natureza que não podem ser justificadas tão somente pela utilidade funcional. O elemento transcendental cerca a nossa vida de forma que sem ele não há vida. Somos dotados da capacidade de sentir prazer na gustação de alimentos. E como seria bom se fosse possível prolongar o sabor das delícias que comemos por quanto tempo quiséssemos. Infelizmente o sabor só dura enquanto a comida passa pela boca e para experimenta-lo novamente precisamos ingerir mais comida. Foi o prazer gustativo que fez surgir a arte da culinária e não a necessidade de sustentar o corpo. Sentimos sabor para termos prazer (por vezes desprazer, é verdade). O sabor não tem a finalidade de nutrição. Não é o sabor que nutre o corpo físico. O sabor nutre a alma, através do prazer. Foi a capacidade de transcender à lógica e à utilidade que fez nascer a arte da criação de perfumes e não a importância de sentir o “cheiro do perigo”. É verdade que é importante sentir o cheiro do gás vazando ou de incêndio para podermos nos proteger. Mas é nos aromas dos bons perfumes que exercemos a transcendência do olfato. É o nariz como meio de alimentar a alma e não como meio de proteger o corpo. Não basta fazer ninhos como os pássaros, nossos ninhos precisam ser obras de arte, com cores que nos tragam alegria, com objetos que ainda que não tenham utilidade alguma nos tragam boas sensações e sentimentos. Porta-retratos com fotos de pessoas que amamos, quadros que testifiquem uma conquista ou mesmo que nos tragam boas lembranças e pensamentos.
Temos desprezado a transcendência do orgasmo e nos contentado apenas com a imanência da ejaculação. Isso não apenas em matéria de sexo, mas também em outras dimensões de nossas vidas. Triste é que até o que parecia não ser possível encurtar, como a música, tem sido também vítima no nosso fast world. Digo que parecia não ser possível porque não podemos ouvir uma obra musical de uma hora em meia hora. Só tenho dois minutos para ouvir essa música de cinco minutos então vou aumentar a rotação da música. Ninguém faz isso. Mas por outro lado temos músicas de uma nota só e um só verso que se repete um milhão de vezes. Nos primeiros segundos você já ouviu a música inteira e é como se ficasse botando pra repetir. É a ejaculação musical precoce. Pior ainda porque não dá tempo de ninguém gozar.
Da forma como as coisas estão caminhando, é de se esperar que o homem evolua tanto que um dia ele consiga se tornar um computador. E quem sabe as pedras então passarão a se interessar por poesia, pelo belo, pelo simbólico, por relações sadias de profundidade, pela vida.

07/05/2007

Diego JP

Por Bruno Montarroyos

João Pessoa, 14 de Abril de 2005

Tio, me dá um pouco de coca-cola. Foram as únicas palavras que ele me dirigiu. Olhei para o copo cheio, mas logo lembrei que a latinha ao seu lado já havia sangrado até a última gota, deixando ao copo os últimos momentos de prazer. Restava pouco do meu purê de macaxeira com carne de sol e strogonoff de frango, pelo qual paguei R$ 3,50 e que junto com o último copo de coca esperava a consumação daquele momento. Diego – Ah, sim, esse era o seu nome, mas que importa, era apenas mais um menino de rua – Ele comia também o seu purê de macaxeira com carne, como o fazia todos os dias. Pra que tudo fique mais claro, deixe-me voltar um pouco pra contextualizar o momento.
Estava em João Pessoa em mais uma de minhas viagens de trabalho. Era dia 14 de abril de 2005. Resolvi sentar à noite em uma das barracas da feirinha que vendia purê de macaxeira. Fiz o meu pedido (esse você já sabe e não vou repetir). Enquanto comia, uma série de meninos de rua foi aparecendo na barraca. Eles conheciam a dona da barraca e a chamavam de tia. Ela os chamava pelos nomes. Parecia acompanhar a vida de cada um. Perguntava sobre a escola, se ainda estavam ou não cheirando cola, etc. Durante os 20 minutos que passei lá cerca de oito deles comeram de graça o mesmo purê que os clientes pagavam. Achei muito interessante aquele fato que mais parecia uma aberração da natureza (naturaldureza com que tratamos pessoas como aqueles garotos). – Diego, diga aos meninos que joguem as vasilhas no lixo, porque ontem achei um monte delas no chão e isso não se faz. E aquela senhora logo viu a resposta à sua solicitação quando volta o Diego de longe, onde estavam os outros comendo, com as vasilhas vazias para jogar no lixo.
Depois de pensar um bocado na terrível falta que me faria terminar aquela macaxeira com meu último copo de coca-cola pude dizer: - tome, pode pegar. O prazer com que comeu e bebeu fez-me sentir um nó na garganta por haver pensado tanto antes de lhe dar o que pedia. – Senta aí; foram as palavras que saíram como um pedido de perdão, palavras que ele fingiu não ouvir e que eu fingi não ter dito.
Saí dali com a triste comparação entre a senhora que arriscava seu pequeno comércio alimentando meninos de rua (além de fornecer o seu produto de graça para aqueles garotos, muitos fregueses com certeza seriam perdidos com os convidados indesejáveis) e o pastor que teve dificuldade de repartir um pouco de coca-cola.

Aos olhos nus

Por Bruno Montarroyos

Não é fácil pensar diferente da grande maioria das pessoas. Ainda que estejamos plenamente convictos do que pensamos, não é fácil.
Você não acha interessante como às vezes algumas situações em nossas vidas fazem surgir questionamentos e reflexões existenciais, sociais, psicológicas, etc? Hoje tive um daqueles momentos.
Pensei em uma família rica. Calça jeans de R$ 500,00, óculos de sol de R$ 600,00, apartamento de algumas centenas de milhares de reais, educação de primeira para os filhos (futuros grandes empresários), viagens ao exterior, amizades influentes, os melhores profissionais e estabelecimentos médicos para o cuidado de suas saúdes, geladeiras e armários fartos das mais diversas e caras guloseimas, etc. São pessoas muito importantes. Estar ao lado de uma delas faz até com que nos sintamos algo próximo do nada. Não vemos a pessoa e sim o que ela tem. E o que ela tem reflete o que ela é.
Em seguida me veio a imagem de uma família pobre. Roupas rasgadas há muito recebidas usadas por outras pessoas (não ricas, mas menos pobres que as compraram na C&A parcelado em dez vezes). Moradores de barracos precariamente construídos em terrenos invadidos, sem saneamento e esgoto. Educação de terceira para os filhos (os que conseguem se manter na escola). Alimentação e saúde é a sorte quem decide pela vez do sim e do não. Se o que elas têm reflete o que elas são poderíamos considerá-las como pouco menos que os animais.
A velha questão do “por que tão poucos com tanto e tantos com tão pouco” não cala. Pensei também em como medimos as pessoas em um mundo capitalista como o nosso. O quanto damos valor a quem tem muito e desvalorizamos àqueles que tem pouco ou nada. O quanto nos sentimos intimidados diante de alguém identificado por nós como “importante” pelo que tem.
Lembrei daquele filme em que um homem muito bem sucedido ficava preso em uma ilha sozinho após um desastre de avião. Passou alguns anos naquela ilha sem contato com ninguém. Tudo o que tinha agora não valia de nada. Nessa ilha não adiantaria ter muito dinheiro na carteira ou na conta bancária. Não havia comunicação. Sozinho nessa ilha ele não é nada. Não há ninguém para admirá-lo, elogiá-lo, etc. Não há títulos acadêmicos. Ninguém está interessado se sua roupa é de marca ou não, nem ele. Ele tem que lutar para sobreviver. Sua barba cresce, sua roupa é única e o sapato tomou de um cadáver, vítima do acidente. Alimenta-se de coco e peixes conseguidos por suas próprias mãos. Naquele mundo qualquer pessoa seria bem-vinda para um bom papo (até uma bola Wilson). Inclusive aquelas que porventura tenham passado por ele despercebidas ou que até mesmo tenham sido desprezadas por ele por não terem nenhuma posse. Qualquer mulher que ele já tenha olhado com o olhar de desprezo julgando-a incapaz poderia ser inclusive sua esposa nesse seu novo mundo. Nesse mundo ele estava nu. Nu de tudo o que o tornava alguém importante. Nu de todas as suas posses.
Essa idéia de nudez é interessante. A nudez torna todos iguais. Se tivéssemos a experiência de observar pessoas ricas e pobres nuas juntas – Lembro de uma foto que causou escândalo: Foi um artista que fotografou milhares de pessoas nuas amontoadas – seria uma missão impossível separar ricos e pobres. Todos são iguais: seres humanos. Nascem, fazem xixi e cocô (perdão por não pedir perdão pela palavra), sangram, adoecem, riem e choram, sofrem e têm prazer, vivem e morrem. E está aí outra coisa que iguala todos: a morte. Em um dos cemitérios em que estive fiquei observando uma caveira e não consegui enxergar no esqueleto traços que me informassem se pertenceu a um rico ou a um pobre em vida. A morte torna todos iguais. Esqueletos são nus.
Observei também que as crianças não ligam muito pra esse negócio de posses. Junte várias crianças ricas com várias outras pobres numa sala cheia de brinquedos e elas farão amizades umas com as outras, brincarão juntas e não saberão que vivem em circunstâncias diferentes. Não saberão se a roupa do outro foi mais cara do que a sua (mais cara, o que é isso?). Mais tarde elas aprenderão que não devem ser amigas. Contato profissional talvez (patrão-empregado). Mas, enquanto isso não acontecer, a única coisa que as impedirá de se relacionarem serão os pais que já aprenderam a lição. Isso porque as crianças conseguem enxergar a nudez umas das outras. A nudez do “ter”.
Fico me questionando muitas vezes se somos seres tão inteligentes assim. Se de repente os animais não estariam mais evoluídos do que nós. Fazemo-nos escravos de nossas próprias criações. Toda nossa criação útil assumirá um dia um papel também estético discriminatório. Roupas que um dia foram úteis apenas para cobrir o corpo hoje expressam o poder aquisitivo e junto com vários outros acessórios e técnicas de produção determinam se o rapaz ou a moça é interessante ou não para namorar. Os automóveis que surgiram para estreitar o caminho entre uma pessoa e outra separam, através de seus vidros fechados, o mundo de “gente interessante” e “gente desprezível”. Cursos superiores considerados melhores são os que pagam melhor. Logo um médico e um advogado é muito mais do que um professor ou assistente social. É assim também que julgamos um político, que através de sua má fé causa a morte e desgraça de várias pessoas, mais inocente que um garoto que assalta um ônibus para alimentar sua família.
Como gostaria que fôssemos nus aos olhos uns dos outros. Que olhássemos para as pessoas como pessoas e não como proprietários. Aos de mais posses resta o desafio de reconhecer nos de poucas ou nenhumas posses a importância de um ser. Aos de poucas ou nenhumas posses também o desafio de saber que ninguém tem tudo. Que os ricos são pessoas que também tem suas necessidades, embora estas não sejam materiais. E que há oportunidades pertencentes apenas aos pobres da mesma forma que algumas cabem apenas aos ricos.

“...Quem é rico anda em burrico. Quem é pobre anda a pé. Mas o pobre vê nas estrada. O orvaio beijando as fulo. Vê de perto o galo-campina. Que quando canta muda de cor. Vai moiando os pés no riacho. Que água fresca, Nosso Sinhô. Vai oiando coisa a grane. Coisas que pra mode vê. O cristão tem qui andar a pé.” (Luiz Gonzaga – Estrada de Canindé)

Não desejo um mundo onde todos tenham as mesmas posses. Onde não haja ricos e pobres. Mas num mundo onde ser rico ou ser pobre não represente melhores ou piores oportunidades, mais ou menos direitos, muito ou pouco caráter, todo ou nenhum valor, ser ou não ser alguém. Num mundo onde todos aos olhos parecem nus.

10/04/2005

Viagem no Tempo

Por Bruno Montarroyos

Acabo de chegar de uma daquelas viagens em que a gente voa para alguns lugares distantes no tempo. Ora embarcamos em direção àquelas diversas lembranças deixadas por momentos vividos. São os caminhos já percorridos da vida. As lágrimas derramadas, o choro engolido, os dias corridos, que sem nos dar conta se vão. Caminho sem volta, a trilha perdida, jamais esquecida, por isso traz dor. Lembranças da infância bem vivida. Das alegrias sem fim, brincadeiras, diversões, nada de preocupações. Onde o passado e o futuro estão a serviço do “Dom” da vida. Presente e Dom são sinônimos, ou pelo menos seriam se não nos tornássemos adultos, transformando o Dom em presente, mas de grego. Presente adulto, esse filho maltratado do passado e escravo oprimido do futuro.
Trago boas coisas dessa terra. Lembranças de boas gentes. Lembranças de toda sorte. São tantas que não consigo nem carregar. Algumas é melhor deixar pra trás, pra conseguir melhor andar. Perdi algumas coisas. Achei outras. É bom achar as coisas. Ganhar...novos amigos, presentes, boas palavras... Difícil é perder. Um abraço amigo Moisés, voinho Manoel, vô Adehyldo, tia Linda, guardo vocês bem vivos nas minhas lembranças. Ex colegas de classe, prometi, verdade, nunca perder o contato. Um dia desses encontrei Léo. Era um amigão meu na 5ª série. Só andávamos juntos. Ia à sua casa e ele à minha. Faz quase 15 anos. Tanta coisa mudou. Hoje mal damos um oi. Olha lá, é o Rafa, era uma criança quando o conheci. Agora está homem feito. Não vou nem falar com ele que com certeza não vai lembrar de mim. Bons tempos quando ajudava a cuidar dele no ônibus da escola.
Quando viajo para o meu passado lembro que sou conseqüência dele. Na verdade sou o meu passado somado e passado no liquidificador.
Mas nem só de ré viverá o homem. As nossas viagens no tempo também perseguem o outro lado do rio. A impressão é de estender os pés no vazio, de onde virá o chão inesperado ou, pelo menos, outrora invisível. Viagem longa, destino incerto, como diria nosso poeta Rubem Alves. Nosso avião flutua num céu nublado onde a única coisa concreta e certa é a incerteza do abstrato. Perdas e ganhos me aguardam. Muitas coisas à minha espera. Ou sou eu à espera de muitas coisas. Aliás, está aí algo que não gosto: Esperar. Odeio filas e me incomodo com atrasos. Esperar...há alguém que goste? Mas se contido no ato de confiar está a confiança, ao esperar exercitamos esperança. E esta sim é uma bela palavra. Minha filha nasceu em um hospital chamado Esperança. Mal sabíamos nós que tanto iríamos precisar lembrar o nome do hospital em seu desenvolvimento. Tenho muitas esperanças na vida. Pessoais, familiares, profissionais, ministeriais, sociais, patrióticas, divino-reais. É no esperar que tanto abomino onde encontro minha identidade, minha razão de ser, a motivação da continuação do meu caminhar. Mas chega disso. Como disse, acabei de chegar de viagem e preciso descansar. Estou exausto. É necessário recuperar minhas forças. Para receber dia a dia meu presente (Dom da vida) em construção. Para enfrentar com esperança os desafios de cada sonho. Boa noite!!!

09/04/2005

Dor, nascimento, beleza

Por Bruno Montarroyos

(ref.: Foto com destroços deixados pelo Tsunami)
Uma onda gigante, um desastre enorme
Muito grito, desespero, muita morte
Nas fotos, amontoados, dezenas de milhares
Corpos, lixo em excesso de um destino sem sorte
Que é o homem, o que é a vida
Vapor que faz renascer a pergunta antiga
Por que viver, qual o sentido?
Coma bem, fique em forma e morra de qualquer jeito
O que vale a pena? Há alguma coisa?
Nasce, vive e morre. O que fica?
Todo sofrimento já se foi?
E quanto valeu enquanto esteve?
Com sofrimento nasceu pela dor
Viveu...para sofrer viveu
Morreu...pelo sofrer morreu
Deixou...para a nova geração deixou o sofrer
Mas do sofrimento também sai luz
As mais belas coisas nasceram da dor
Belos sentimentos fazem sofrer
Do sofrimento a beleza deve ter nascido do criador
Dor, nascimento, beleza
Herdeiros do dom de fazer nascer, criar
Herdamos o dom de sofrer
07/01/2005

A escravidão à Lei (Sistema)

Por Bruno Montarroyos

Pode alguma coisa criada para o benefício do homem tornar-se mais importante do que o próprio homem, voltando-se contra ele? Pode o remédio da cura tornar-se o veneno da morte? Pensemos num enfermeiro de posse de uma ordem para a medicação de um paciente. Ao chegar ao leito do paciente ele se depara com uma situação atípica. Ele percebe que, naquela situação, o paciente não resistirá à medicação. Entretanto, para que a ordem se cumpra, ele sacrifica o paciente. Pensemos também em um engenheiro que sacrifica vidas para economizar no gasto de materiais para um edifício. Pensemos em um professor que para sentir-se um pouco mais, humilha o aluno que considera uma ameaça. Pensemos ainda no aluno que se promove ou sente-se promovido à medida em que pisa em seus colegas de turma. Não que isso aconteça...mas imaginemos, só imaginemos que sim. Tudo isso são exemplos de coisas que ganham valor maior que o ser humano. Todas essas coisas expressam uma certa escravidão do ser humano a algum sistema que estabeleceu as coisas como maiores que os seres. Assim também se procede com os preceitos, regras, com a Lei, da qual todos nós somos chamados à escravidão: A escravidão à Lei.
Jesus se deparou com essa realidade. No evangelho segundo Marcos, os versículos 23 ao 28, do Capítulo 2, nos mostram como isso ocorreu. Consideremos os versículos 23, 24 e 27:

23 Num sábado, Jesus e os seus discípulos estavam atravessando uma plantação de trigo. Enquanto caminhavam, os discípulos iam colhendo espigas.
24 Então alguns fariseus perguntaram a Jesus: -Por que é que os seus discípulos estão fazendo uma coisa que a nossa Lei proíbe fazer no sábado?
27 E Jesus terminou: -O sábado foi feito para servir as pessoas, e não as pessoas para servirem o sábado.

Podemos identificar claramente o interesse de Jesus em mostrar que o ser humano vale mais que qualquer instituição.

Em um primeiro momento...

1. A escravidão à Lei nos torna defensores da Lei

O questionamento dos fariseus (v. 24) nos mostra que a escravidão à Lei os levava a um esforço para mantê-la, ainda que à custa de atos desumanos.
Chegamos ao seminário cheio de sonhos e boas intenções. A vida na igreja um dia provocou em nós motivações sinceras de fazer algo mais em favor do Reino de Deus. Muitos de nós deixamos muitas coisas em nossa vida para vir ao Seminário. Um outro curso superior ou o desejo por outro curso superior, família, planos, sonhos, etc. Ansiamos por uma preparação melhor para “ganhar pessoas para Cristo”, que é o slogam baseado em nossa ingênua idéia de evangelização. Ilusões, ilusões...
Algum tempo no seminário (de calouros para veteranos, conforme a tradição) nos vemos como integrantes do Show de Truman (filme), habitantes da Matrix (filme), civilizados do Admirável mundo novo (livro de Aldous Huxley), o homem na caverna de Platão (em seu livro A República).
...Descobrimos que estávamos apenas contribuindo para a manutenção da escravidão à Lei, contribuindo para a manutenção do sistema. Estávamos querendo proteger, defender, guardar a Lei. Mas a Lei foi criada para defender, proteger, guardar o ser humano e não para ser defendida, protegida, guardada por ele.
Notamos, então, que a nossa idéia evangelizadora de “ganhar almas para Cristo” na verdade era de “alcançar cada vez mais humanos para torná-los cada vez menos humanos”. Isso faz lembrar muitos pregadores que usam uma velha ilustração dizendo: “Um aluno certa vez perguntou ao seu professor, que era evangélico: - Professor, qual a melhor hora para aceitar a Jesus e livrar-se do inferno? O professor respondeu: - Cinco minutos antes de morrer. O aluno saltou de alegria, pois poderia ainda curtir muito a vida. O professor, então dirigiu-se a ele e perguntou: -Qual o dia e hora em que você vai morrer? E o aluno ficou desconcertado. – Como você não sabe e pode ser a qualquer hora, continuou o professor, a melhor hora para aceitar a Jesus é agora”. O pregador, então, dizia que é lógico que, se ele soubesse o momento exato em que iria morrer ou, de igual forma, se não existisse céu ou inferno, estaria era “curtindo a vida adoidado”. Esse tipo de pregação apresenta o evangelho como um fardo pesadíssimo. Como um voto de mortificação, que só vale a pena porquê “nossa vida não é aqui. Aqui é apenas uma passagem para a vida de verdade e eterna”.
Talvez a música de Gonzaguinha tenha mais a ver com o evangelho de Cristo do que muitas de nossas músicas ditas evangélicas: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será. Mais isso não impede que eu repita: É bonita! É bonita e é bonita!” Vida em abundância! Isso não representou em Jesus uma metáfora do Céu, mas uma realidade possível em vida humana e terrestre.
É preciso termos uma razão bela para justificar o “ser evangélico” que não a vida no céu ou o sofrimento no inferno. Essa razão é a própria vida, a vida abundante. O evangelho propõe uma vida muito mais bela e atraente do que a que a maioria de nossas igrejas têm oferecido através dele. Não é um conjunto de proibições, mas um convite à liberdade e à vida. O evangelho de Jesus atraía multidões. Os que não eram atraídos a participarem eram, geralmente, os que se consideravam muito religiosos. Jesus traz uma nova revelação, mais elevada, o vinho novo que termina rachando os odres velhos dos religiosos de sua época (conforme ilustração no versículo anterior – v.22). Eles se negaram a tornarem-se vasos novos que pudessem suportar a novidade do evangelho. O vinho novo do evangelho só pode ser conservado se os vasos da tradição estiverem se renovando constantemente. Para isso é necessário saber que nenhuma instituição é sagrada por si mesmo. As pessoas é que são sagradas.

Em um segundo momento...

2. A escravidão à Lei se torna alvo de nossa crítica

Jesus apresenta nos versículos 25 ao 28 sua crítica racional (que busca a razão das coisas). Ele procurava, através dessa crítica, trazer à tona o sentido da Lei, em detrimento de sua letra.
Algum tempo no seminário e começamos a questionar muitas coisas. Coisas até demais. Viajamos em um mundo de idéias. Fazemos nossas intermináveis críticas. Filosofia, teologia, psicologia, crítica bíblica (mas, pode alguém criticar a Bíblia?!!), etc. Nossas críticas chegam aos extremos de esquecermos até a realidade. Nos colocamos numa alienação ideológica.
A crítica é um instrumento importantíssimo e extremamente necessário a todos nós, mas precisamos cuidar para que ela não se torne um fim em si mesmo. A crítica precisa de um alvo maior do que ela, senão ela mesma será a Lei que nos escraviza. Seremos escravos da crítica da escravidão da Lei. A crítica pretende elucidar, fundamentar, enraizar conceitos anteriormente recebidos de forma apriorística.
Nossa crítica deve estar a favor do resgate de uma essência. Quando Jesus criticou o sistema de sua época não foi pelo simples prazer de criticar, mas pelo interesse de fazer emergir um sentido mais profundo de tudo aquilo.
Nesse período de Seminário em que nos colocamos em favor dessas construções críticas, muitos de nós (a maioria) mergulhamos num mar de dúvidas e frustrações. É uma fase necessária ao desenvolvimento, mas não pode ser uma fase estacionária.
É importante que critiquemos todas as coisas. Muito mais importante é que direcionemos essas críticas a uma finalidade maior: o ser humano, a vida. Nenhuma instituição nossa pode ser estimada acima do ser humano, da vida, nem a crítica.

Em um terceiro momento, ouvimos a voz do sistema: -Cale-se!

3. A escravidão à Lei não pode nos calar

O sistema se encarregou de calar Jesus, matando-o por sua aparente contradição à Lei.
Ao aproximar-se do final do curso no seminário, somos deparados com uma situação muito complicada. Como dissemos anteriormente, muitos de nós deixamos tudo para trás para encarar essa missão. Agora, já tendo caído de nossos tapetes mágicos e, muitos agora com uma nova família, que assumira durante o curso. Pensamos: Se enfrentar o sistema, como sustentarei minha família? Como me sustentarei? O que farei?
Tais dúvidas nos colocam numa situação em que temos de tomar sérias decisões:
Podemos fingir, inclusive para nós mesmos, que concordamos com o sistema. Nos submetemos a ele, buscando uma posição confortável e de reconhecimento. Muitos escolhem este caminho e não os culpamos. São vítimas do sistema. Eles começam a travar um discurso de que psicologia, teologia, filosofia, crítica, tudo é vão. Só a prática importa. As pessoas querem ação. Elas querem o que esperam. E o que esperam não é o que o pensar crítico pode oferecer. Querem receitas prontas. Querem, sem o saber, continuar escravas, pois isso é cômodo.
Outros preferem abandonar totalmente o sistema estabelecido, a denominação e mergulhar cada vez mais profundamente nas suas críticas, agora de solidão. Esses não são tantos quanto os outros. Eles distanciam-se totalmente da realidade, fazendo de todas as suas idéias utopias. Ficam sozinhos com as suas idéias e desprezam uma finalidade maior que sua crítica.
Uma terceira opção seria a busca do equilíbrio entre o ideal e o real, entre as disciplinas acadêmicas e a prática necessária. As pessoas que seguem por esse caminho? São pouquíssimos.
O sistema manda calar, adaptar-se a ele. A música de Chico Buarque de Holanda bem pode ser aplicada a esse contexto: “De muito gorda a porca já não anda. De muito usada a faca já não corta. Como é difícil, Pai, abrir a porta. Essa palavra presa na garganta...Pai, afasta de mim esse cale-se”. A porca e a faca são esse sistema. Foram meios que se tornaram fins, foram formas que se tornaram essência. Uma religiosidade superficial causando a perda da relevância essencial do cristianismo...CALE-SE!...
Mataram Jesus. O cálice de Jesus foi tomado por questão de honra (não se dobrou ao sistema). Sócrates tomou o seu cálice de cicuta por questão de honra (não se dobrou ao sistema). O sistema quis calar Truman com uma tempestade. A matrix quer calar Zion. A civilização baniu Bernard Marx e Hemholtz Watson, dois personagens do Admirável mundo novo, para uma Ilha longínqua, por terem se negado a calar. O homem que volta à caverna de Platão é convidado a calar. CALE-SE!
O seminarista desabafa “como é difícil, Pai, abrir a porta. Essa palavra presa na garganta...” Como é difícil expressar nossa crítica. Principalmente quando pessoas a quem amamos (Pai, Mãe, família) já são vítimas do sistema e não aceitam nem aceitarão suas idéias. CALE-SE! O seminarista clama “Pai, afasta de mim esse Cale-se”. Esse é o nosso grito, digo, deve ser: -Afasta de nós esse CALE-SE!
Dizem que felicidade e liberdade são incompatíveis. Que sonhos não entendem de realidade. Mas é possível um equilíbrio. Libertos da escravidão à Lei, valorizemos o ser humano, a vida. Vivamos intensamente a vida. Levemos vida às pessoas. E aí nos nossos últimos dias poderemos ter lembranças de contentamento por nossas realizações no lugar de lembranças de lamento por nosso egoísmo e covardia.
Todos nós temos um potencial enorme para iniciarmos um processo revolucionário de mudanças. Um processo que traga de volta a essência do que Jesus ensinou através de suas palavras, vida e morte. Um processo que traga de volta a vida às pessoas. Vida com todas as suas instâncias (sofrimento e prazer, alegria e lamento, angústia e contentamento, certezas e dúvidas, espiritual e humano). Vida completa. Não podemos alcançar a realização plena desse processo, mas podemos iniciá-lo.
Pai, afasta de nós esse CALE-SE!
“Pois não podemos deixar de falar daquilo que temos visto e ouvido”. (Atos 4:20)

Mensagem no culto-capela do STBNB em 23/10/2003

O Sexto Sentido

Por Bruno Montarroyos

Leia, por favor, esta carta, entenda-me, peço, e ajude-me...
Estou só
A angústia preenche todo o meu ser
Sinto em meu corpo um pesar acentuando-me a fraqueza
O céu parece sombrio e triste
A brisa que passa parece levar consigo toda a minha esperança
Os dias passam como um pássaro errante que não se pode prever onde pousará
Todos parecem não me enxergar ou não perceber minha carência
Tenho medo
Ao lado de meu amigo Hoje fujo desesperado do maldoso Ontem
Este quer tirar-me o vigor fazendo-me temer sempre o fantasma Amanhã
Ouvi dizer que poderia ajudar-me, mas como se nunca o vi?
Espere! Nunca vi também Platão ou Sócrates (por Platão), Homero, Dante ou Kant, Michelangelo, Bach, Mozart e tantos outros, digo, os vejo sim
Vejo-os por suas obras magníficas
Da Vinci, Raphael, Van Gogh e outros artistas incríveis comparados a ti tornam-se apenas reprodutores das tuas obras
Sim eu te posso ver, mas nunca pude tocar-te ou sentir o teu toque
Talvez esteja enganado, ou melhor, estou, pois sou tocado pela brisa que mandas
Posso senti-la em todo o meu corpo
Posso sentir as águas marinhas ou fluviais envolverem-me ao mergulhá-las
Sim, sinto o teu toque, e agora acordo, abro os olhos
Posso também sentir os perfumes que criaste
Flores, relva, perfumes de todas as cores, uma natural aquarela aromática
Sinto o sabor das delícias mil criadas por ti para o nosso paladar
Posso ouvir os sons multiformes dessa vasta natureza
Águas, pássaros, animais diversos, uma orquestra sinfônica de uma harmonia inigualável
Isso poderia já ser tudo, mas dotaste-nos também de um sexto sentido
Com este posso ver-te melhor, ouvir o doce tom da tua voz, sentir o sabor de tua companhia
O cheiro suave da tua paz e o teu toque de amor
E mesmo quando me faltarem todos os sentidos, posso crer que estás ao meu lado
Posso conversar contigo, converso contigo
Agora não estou mais só
Sinto paz, alegria, tudo é belo
O céu abriu-se em esplendorosa e magnífica beleza
A brisa traz-me de volta a esperança
Meus dias despontam tal como a flecha disparada pelo arco em lugar certeiro
A força de nossa relação completa-me, ajuda-me
A viver bem com meu amigo Hoje sem fugir do maldoso Ontem e
Correndo ao encontro do “não mais fantasma” Amanhã com esperança e segurança
Obrigado, meu Deus Pai, Amigo presente que tantas vezes
Com o filho fazendo-se ausente
Continua pra sempre presente ao meu lado.

Matando Deus para que Ele viva

Por Bruno Montarroyos

É muito comum ouvirmos no meio evangélico a apologia acerca da necessidade de crer em Deus, ou seja, em sua existência. Muitos de nós, para não dizer a maioria, cremos porque nos foi apresentado como algo necessário para alcançarmos um benefício especial, ou seja, cremos por conveniência. Quero defender aqui, não a necessidade de crer na existência de Deus, mas a necessidade de duvidar, não crer nessa existência (não me refiro à existência absoluta de Deus, mas à existência ofuscada pelos nossos pré-conceitos, ou seja, livrar-se da nossa idéia atual sobre Deus), claro que metodicamente, para crescermos rumo a uma fé mais genuína, mais firme, como uma casa construída sobre a rocha. Afinal, o que é crer em Deus? Aceitar cegamente o que nos é pregado? A fé em Deus precisa ser ininteligível? Acredito que a expressão “pela fé”, tão usada por nós, não tem sido muito bem empregada em nossos dias, como também não foi em outras épocas. Essa expressão não pode justificar uma assimilação de valores meramente místicos, descartando todo e qualquer uso da razão a fim de identificar e conhecer Deus, alienando a fé que precisaria ser firme e segura.
A fé firme acerca da existência de Deus, da qual estou falando, penso podermos alcançar através de um ceticismo metódico, como podemos notar em Descartes1, que tem algo a nos ensinar em matéria de obtenção de conhecimento bem fundamentado e convicto. Livrar-se ao máximo da visão atual instalada em nós acerca de Deus é indispensável nessa busca pela fé genuína. Temos como exemplo a declaração de Paul Tillich (em referência à obra “Assim falou Zaratustra”, de Nietzsche, quando este diz “Deus está morto”) de que o seu conceito tradicional de Deus estava realmente morto.2 Em que se fundamenta a imagem que temos atualmente de Deus? Se Deus se mostrasse de forma concreta a cada um de nós, poderíamos ter um perfil mais confiável, mas ninguém jamais viu Deus de forma concreta. O problema, com o qual nos deparamos, é que o homem sente uma necessidade profunda de deduzir o que ele não pode explicar racionalmente. Daí alguns defenderem que Deus não criou o homem à sua imagem e semelhança, mas foi o homem quem criou Deus à sua imagem e semelhança. Apoiamos todo o nosso conhecimento sobre Deus na sua revelação narrada nas “Escrituras Sagradas”. A revelação de Deus é o meio que nos possibilita conhecer acerca de si. As Escrituras são o instrumento através do qual podemos receber essa revelação (digo isso baseado em nossa “tradição teológica”, já que esse texto não pretende incentivar-nos a libertarmo-nos dos pré conceitos em relação às Escrituras e sim a Deus).
Podemos notar nas Escrituras uma evolução no que diz respeito a essa revelação. O Deus do Antigo Testamento, entre outros feitos, ordena ao “povo escolhido” matar outros povos, no sentido de possuir as terras destes, ou seja, matar para possuir terras alheias. No Novo Testamento, esse mesmo Deus ensina a amar até os inimigos. Deus não pode mudar, pois uma mudança significaria que algo outrora estava errado e foi preciso um conserto, o que caracterizaria um ser imperfeito, anulando sua posição de Deus. Logo, se ele não mudou, os homens é que o perceberam diferente em diversas épocas e momentos, ou seja, o agente passivo da revelação de uma época tem uma percepção divina aquém dos de épocas posteriores. Nesse caso, a pergunta é: para onde aponta a linha de evolução da revelação de Deus ao homem? E aqui apresento duas opções a serem pensadas. 1. A linha de evolução da revelação de Deus ao homem aponta para o futuro intermitentemente. Isso implicaria dizer que na época de Jesus a visão de Deus era bem mais próxima do real do que na época de Abraão, bem como hoje essa visão está ainda mais próxima do real do que na época de Jesus, reservando ao futuro uma visão ainda mais próxima. Talvez não consigamos aceitar essa opção como resposta, pois ela anularia a condição de Jesus ser o próprio Deus encarnado. Para aceitá-la como provável precisaríamos livrar-nos da idéia tradicional a respeito de Jesus, mas isso não vem ao caso. 2. A linha de evolução da revelação de Deus ao homem aponta para Jesus. O que implicaria dizer que passado, presente e futuro devem apontar para Jesus, em matéria de evolução da revelação de Deus ao homem, ou seja, em Jesus está o máximo que podemos conhecer sobre Deus, por ser ele mesmo o próprio Deus. Fechando os olhos para a liberdade dos pré conceitos a respeito de Jesus e das Escrituras, correremos desesperados para a segunda opção. Considerando-a, então, como “a opção correta”, teríamos que sair em busca do Jesus mais original quanto for possível resgatar. Para isso precisaremos procurar Jesus por trás da interpretação, ou mesmo interpretação da interpretação daqueles que o relatam e ainda por trás de toda a tradição e contexto histórico dos escritos que possuímos3. É esse Jesus que devemos conhecer para que enxerguemos o Deus que ele aponta, ou seja, o máximo que se pode conhecer sobre Deus na dimensão em que vivemos.
No entanto, em detrimento dessa resposta, temos algumas dúvidas (metódicas) que nos ajudam a refletir mais: Será que Deus nos obrigaria a acreditar em relatos feitos por homens iguais a nós, do nascimento, vida, morte e ressurreição de um homem que também era Deus, para que pudéssemos conhecê-lo, sendo isso necessário para definir entre uma “salvação ou condenação eterna”? Se Deus é quem pregamos ser, por que amando a todos indistintamente, bem como querendo que todos sejam salvos, tornaria difícil acreditar na sua existência através do uso da mente que ele nos deu? Talvez as Escrituras não sejam a única forma de percebermos a revelação de Deus. Talvez Deus se deixe conhecer de uma forma mais natural, através de sua criação (não estou defendendo a teologia naturalista, apenas não a estou dispensando na íntegra). Podemos notar que talvez esteja nos faltando um pouco de pensamento indutivo a respeito de Deus. Limitamo-nos na vagueza do pensamento dedutivo, mergulhando num mar de dúvidas no qual poderemos nos afogar ao encher da maré.
Acredito que a precaução a ser tomada para que não nos afoguemos nesse mar de dúvidas é justamente o que tentei expor nessas poucas linhas: livrar-se de todo o pensamento pré-conceituoso sobre Deus (matá-lo) e, de um modo mais indutivo e menos místico, procurar conhecê-lo até onde for possível a nós, simples seres humanos (isso é torná-lo mais vivo dentro de nós). Como chegar a esse conhecimento? Matando Deus para que ele viva.

2º Semestre de 2001