sábado, 24 de janeiro de 2009

A Epopéia de Carpenaldo: Uma jornada em busca da humanidade perdida

Por Bruno Montarroyos

PARTE I - Tábua I

A visita de Dona Taná


Aquele teria sido apenas mais um daqueles finais de tarde em que o descolorir do dia se precipita sem timidez. Os mares de Olinda pareciam querer fugir através de suas estreitas ruas. Balançavam freneticamente numa dança como que de uma grande multidão a experimentar as atividades mais rudimentares de acasalamento. A respiração ofegante daqueles milhares de amantes reunia-se contra toda a costa, varrendo dali qualquer pretensão de presença humana. Apenas as lágrimas divinas de comoção ainda não se juntara à paisagem, misto de violência e extremo prazer. As únicas lágrimas no momento pertenciam a Carpenaldo, que com os olhos fitos àquela orgia marítima, as sentia bailar sobre o seu rosto miúdo em direção aos seus ouvidos antes de se esvaírem aos céus. Aquele garoto de apenas oito anos não demonstrava nenhum temor diante de cena tão sombria. Estava só. Estava como se não estivesse lá. Imóvel e curioso acerca dos fatos que acabara de presenciar. Bem perto dali, numa das esquinas da rua por trás daquela banhada pelo mar, estava a casa de seus avós. Era a casa onde Carpenaldo morava desde que sua mãe o abandonou. Mas sobre os seus pais teremos oportunidade de conhecer mais tarde. Nessa tarde a novidade não era aquele mau tempo e sim uma visita inesperada que mudaria para sempre a história de Carpenaldo Diemedes dos Santos, seu nome de batismo. Era a primeira vez que o garoto conhecia de perto a velha hospitaleira e gentil que nunca negará a um ser qualquer que seja, até ao mais desprezível, um cômodo que lhe sirva de descanso: A morte, a velha Taná, apelido que tomo emprestado de sua correspondente do grego antigo tanatos. Dona Taná resolveu visitar o avô de Carpenaldo naquele não tão belo dia. Penso até que teria sido exatamente a confusão nos pensamentos do garoto naquele momento a causa de tamanha agitação no céu e no mar aquele final de tarde. E sentindo-se convidado pelo espetáculo que ele, sem o saber, teria acabado de criar, estava ali, sozinho, mergulhado no mais profundo de si mesmo. Assaltavam-lhe as palavras da avó: - Meu filho, assim o chamava, não se preocupe, ele está com Deus e agora viverá para sempre. Não compreendia o que isso queria dizer. Por que o seu avô não mais lhe responde quando o chama? Repetia diversas vezes a mesma frase mágica e infalível que transformava o seu avô em criança novamente: - Nem me pega hoje não, vovão gordão! E saía correndo desembestado para se livrar da fera que acabara de acordar. Mas a fera desta vez permanecia imóvel em sua cama como se estivesse aprisionado a um encantamento que o teria petrificado. As palavras “...e agora viverá para sempre” proferidas pela sua avó não o deixava em paz. Não conseguia encaixá-las devidamente na imagem inerte daquele corpo que um dia fora o seu avô. O mar sombrio de dúvidas experimentado por Carpenaldo nesse dia refletia simplesmente aquela antiga angústia humana que atormentava os nossos antepassados como a nós hoje. Afinal, quanta vida existe depois da morte? Quanto é para sempre? Não, infelizmente não saberia responder a essas questões. Mas há uma outra que me arrisco palpitar uma resposta: Quanta morte existe após a vida. Não responderia eterna porque não me sinto capaz de conceber tal conceito, eternidade. Mas depois de uma vida há morte o suficiente para durar ao menos toda uma vida de outro alguém. A morte do avô de Carpenaldo duraria para esse garoto todo o resto de sua vida, depois desses seus oito anos vividos ao lado daquele vovão gordão. Não sei quanta vida pode haver depois da morte, mas sei quanta morte sucede uma vida. Um dia Carpenaldo será confrontado pela primeira vez com a pergunta-chave de sua história: Quanta vida deve ornamentar uma vida para que a visita da Dona Taná não seja a uma vida já sem vida? Carpenaldo não teve oportunidade de conhecer os Avós de seus Avós. Eles já haviam morrido há pelo menos uns cinqüenta anos. Um dia eles estarão mortos a mais tempo do que o tempo que ficaram vivos. A morte aparentemente é bem mais longa que a vida. O garoto volta então para sua casa como uma pessoa bem diferente. Nunca mais será o mesmo. Por várias vezes ainda presenciará a visita da velhinha Taná. Até o dia em que ele próprio procurará em seus seios abrigo. Mas antes disso encherá de cores os seus dias, de luzes o seu caminho, de grandeza as menores coisas, enfim, encherá de mais vida a vida.
Assim inicia a jornada de Carpenaldo, que aos oito anos conheceu a morte e dela nunca mais esquecerá.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O Evangelho Fora da Religião

Por Bruno Montarroyos

...os problemas sociais da atualidade e a forma como se relacionam entre si e como interagem localmente e globalmente. Investigaremos expressões sociais de teor profético advindas de movimentos políticos, midiáticos, artísticos e musicais da atualidade, comparando a voz e atividade profética nos textos bíblicos a essas expressões... VEJA ESSE TEXTO NA ÍNTEGRA EM: http://sites.google.com/site/bmontarroyos/Home/Monografia.pdf?attredirects=0

Monografia entregue em 2006 à Universidade Católica de Pernambuco por Bruno Montarroyos.

ASSUNTO: Mídia Coorporativa / Mídia Independente, Atividade Profética, Evangelho, Opressão, Globalização.

Juventude e Alienação Religiosa

Por Bruno Montarroyos

O ritmo acelerado de mudanças no tempo em que vivemos é alvo de atenção, exploração e uso de todas as áreas de interesse da vida humana. O desenvolvimento tecnológico, o avanço dos conhecimentos científicos na biologia, medicina, o exame de DNA, o DVD e as músicas em MP3 são pequenas amostras de tudo o que temos presenciado neste mundo que corre, digo, voa do analógico para o digital em uma velocidade cada vez maior... VEJA O TEXTO NA ÍNTEGRA EM:
http://sites.google.com/site/bmontarroyos/Home/juventude_e_alienacao_religiosa.pdf?attredirects=0

Monografia entregue ao Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil em 2003 por Bruno Montarroyos.
ASSUNTO: Religião, Preconceitos, Sociedade.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

A Inovação no Brasil e o cenário internacional

Por Bruno Montarroyos

Diante desse novo cenário de competitividade internacional onde estará o Brasil e o seu sistema nacional de inovação? De que forma o nosso país tem respondido às significativas mudanças das últimas décadas e como tem se projetado no cenário internacional?... LEIA O TEXTO NA ÍNTEGRA EM: http://sites.google.com/site/bmontarroyos/Home/InovacaoBrasileira.doc?attredirects=0

Artigo entregue à disciplina Política Internacional do mestrado em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco. Por Bruno Montarroyos.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Devaneios

Por Bruno Montarroyos

É curioso observar como tudo ao nosso redor está intimamente ligado à forma como percebemos e vivemos a vida. O texto que se segue são devaneios sem uma finalidade específica. Tão somente devaneios.
Ao passar de ônibus por algumas das ruas do centro do Recife fiquei, como de costume, observando a beleza arquitetônica de alguns prédios muito antigos. Os detalhes suaves e delicados em suas fachadas trazem aos olhos e à alma um prazer indescritível. São desenhos tão belos. Com certeza deve ser bem trabalhoso fazer tantos detalhes em uma construção. Bem diferente da sensação que se pode experimentar ao olhar as construções mais modernas, onde as leis de economia de espaço e dinheiro, praticidade e funcionalidade são mais importantes que a singeleza estética. Afinal, para quê tanto detalhe na fachada de um prédio que só serve pra se ficar admirando. Não é útil para nenhuma outra coisa. Dá trabalho construir dessa forma. Dá trabalho cada vez que precisa pintar. Os serviços de pintura são muito mais caros em prédios com desenhos e detalhes bonitos do que em prédios simples e retos.
Fiquei a pensar: De fato é mais racional construir rápido e barato, reduzindo custos, facilitando as manutenções e maximizando os lucros.
As palavras rápido e lucro são de fato palavras de ordem em nossa sociedade do século XXI. Já não basta acesso à internet, agora precisa ser internet rápida (Banda Larga). Não basta poder comer na rua para não precisar voltar em casa entre turnos de trabalho, precisa ser fast-food.
Com essa tendência universal criamos novos paradigmas sociais. Agora não só comida rápida, comunicação em tempo real, ou leitura dinâmica, mas surgiram os amigos rápidos, diálogos rápidos, relacionamentos rápidos, sexo rápido (ou rapidinha). Tudo precisa ser instantâneo, imediato. Não temos mais tempo para cultivar amizades profundas e duradouras. Não temos mais tempo para longas conversas e limitamo-nos a curtos diálogos, geralmente superficiais. Temos muito mais amigos, é verdade. Mas vivemos as nossas amizades com muito menos intensidade. A leitura dinâmica nunca servirá para ler poesias porque é impossível experimentar as sensações de uma leitura poética em um ritmo acelerado. Já imaginou alguém declamando uma poesia como um locutor esportivo narra uma partida de futebol no rádio?
O lucro é da mesma forma a bola da vez. Como poderemos ter mais lucro? Como será mais barato? Na esfera pública das licitações é o pregão, agora eletrônico, que garante o melhor preço de compra. Isso pode significar baixos salários e condições de trabalho escravo na outra ponta, mas o que importa é comprar mais barato.
Com certeza é mais barato construir um prédio moderno que um prédio com detalhes coloniais. Será também mais barato alimentar-se tão somente de pílulas que contenham apenas o que for necessário ao organismo, quando isso for possível. Mas tais pílulas jamais poderão nos trazer os prazeres que as mais criativas e deliciosas guloseimas podem trazer. Será possível um dia programar a nossa audição apenas para o que nos for útil? Só ouviríamos o que quiséssemos e quando quiséssemos. Programar nossos corpos para não sentir dor? Escolheríamos apenas as sensações de prazer. Mas haveria prazer sem a dor? Poderíamos configurar nossos olhos para não ver o que pode nos ser nocivo? Jamais testemunharíamos violência, injustiça, agressão, acidentes e tantos outros fatos lamentáveis. Mas também não poderíamos exercer a nossa sensibilidade a essas coisas e até mesmo lutar contra elas. Programaríamos nossos narizes apenas para os prazeres olfativos? Tudo isso seria muito mais prático.
Existem dimensões em nossa natureza que não podem ser justificadas tão somente pela utilidade funcional. O elemento transcendental cerca a nossa vida de forma que sem ele não há vida. Somos dotados da capacidade de sentir prazer na gustação de alimentos. E como seria bom se fosse possível prolongar o sabor das delícias que comemos por quanto tempo quiséssemos. Infelizmente o sabor só dura enquanto a comida passa pela boca e para experimenta-lo novamente precisamos ingerir mais comida. Foi o prazer gustativo que fez surgir a arte da culinária e não a necessidade de sustentar o corpo. Sentimos sabor para termos prazer (por vezes desprazer, é verdade). O sabor não tem a finalidade de nutrição. Não é o sabor que nutre o corpo físico. O sabor nutre a alma, através do prazer. Foi a capacidade de transcender à lógica e à utilidade que fez nascer a arte da criação de perfumes e não a importância de sentir o “cheiro do perigo”. É verdade que é importante sentir o cheiro do gás vazando ou de incêndio para podermos nos proteger. Mas é nos aromas dos bons perfumes que exercemos a transcendência do olfato. É o nariz como meio de alimentar a alma e não como meio de proteger o corpo. Não basta fazer ninhos como os pássaros, nossos ninhos precisam ser obras de arte, com cores que nos tragam alegria, com objetos que ainda que não tenham utilidade alguma nos tragam boas sensações e sentimentos. Porta-retratos com fotos de pessoas que amamos, quadros que testifiquem uma conquista ou mesmo que nos tragam boas lembranças e pensamentos.
Temos desprezado a transcendência do orgasmo e nos contentado apenas com a imanência da ejaculação. Isso não apenas em matéria de sexo, mas também em outras dimensões de nossas vidas. Triste é que até o que parecia não ser possível encurtar, como a música, tem sido também vítima no nosso fast world. Digo que parecia não ser possível porque não podemos ouvir uma obra musical de uma hora em meia hora. Só tenho dois minutos para ouvir essa música de cinco minutos então vou aumentar a rotação da música. Ninguém faz isso. Mas por outro lado temos músicas de uma nota só e um só verso que se repete um milhão de vezes. Nos primeiros segundos você já ouviu a música inteira e é como se ficasse botando pra repetir. É a ejaculação musical precoce. Pior ainda porque não dá tempo de ninguém gozar.
Da forma como as coisas estão caminhando, é de se esperar que o homem evolua tanto que um dia ele consiga se tornar um computador. E quem sabe as pedras então passarão a se interessar por poesia, pelo belo, pelo simbólico, por relações sadias de profundidade, pela vida.

07/05/2007

Diego JP

Por Bruno Montarroyos

João Pessoa, 14 de Abril de 2005

Tio, me dá um pouco de coca-cola. Foram as únicas palavras que ele me dirigiu. Olhei para o copo cheio, mas logo lembrei que a latinha ao seu lado já havia sangrado até a última gota, deixando ao copo os últimos momentos de prazer. Restava pouco do meu purê de macaxeira com carne de sol e strogonoff de frango, pelo qual paguei R$ 3,50 e que junto com o último copo de coca esperava a consumação daquele momento. Diego – Ah, sim, esse era o seu nome, mas que importa, era apenas mais um menino de rua – Ele comia também o seu purê de macaxeira com carne, como o fazia todos os dias. Pra que tudo fique mais claro, deixe-me voltar um pouco pra contextualizar o momento.
Estava em João Pessoa em mais uma de minhas viagens de trabalho. Era dia 14 de abril de 2005. Resolvi sentar à noite em uma das barracas da feirinha que vendia purê de macaxeira. Fiz o meu pedido (esse você já sabe e não vou repetir). Enquanto comia, uma série de meninos de rua foi aparecendo na barraca. Eles conheciam a dona da barraca e a chamavam de tia. Ela os chamava pelos nomes. Parecia acompanhar a vida de cada um. Perguntava sobre a escola, se ainda estavam ou não cheirando cola, etc. Durante os 20 minutos que passei lá cerca de oito deles comeram de graça o mesmo purê que os clientes pagavam. Achei muito interessante aquele fato que mais parecia uma aberração da natureza (naturaldureza com que tratamos pessoas como aqueles garotos). – Diego, diga aos meninos que joguem as vasilhas no lixo, porque ontem achei um monte delas no chão e isso não se faz. E aquela senhora logo viu a resposta à sua solicitação quando volta o Diego de longe, onde estavam os outros comendo, com as vasilhas vazias para jogar no lixo.
Depois de pensar um bocado na terrível falta que me faria terminar aquela macaxeira com meu último copo de coca-cola pude dizer: - tome, pode pegar. O prazer com que comeu e bebeu fez-me sentir um nó na garganta por haver pensado tanto antes de lhe dar o que pedia. – Senta aí; foram as palavras que saíram como um pedido de perdão, palavras que ele fingiu não ouvir e que eu fingi não ter dito.
Saí dali com a triste comparação entre a senhora que arriscava seu pequeno comércio alimentando meninos de rua (além de fornecer o seu produto de graça para aqueles garotos, muitos fregueses com certeza seriam perdidos com os convidados indesejáveis) e o pastor que teve dificuldade de repartir um pouco de coca-cola.

Aos olhos nus

Por Bruno Montarroyos

Não é fácil pensar diferente da grande maioria das pessoas. Ainda que estejamos plenamente convictos do que pensamos, não é fácil.
Você não acha interessante como às vezes algumas situações em nossas vidas fazem surgir questionamentos e reflexões existenciais, sociais, psicológicas, etc? Hoje tive um daqueles momentos.
Pensei em uma família rica. Calça jeans de R$ 500,00, óculos de sol de R$ 600,00, apartamento de algumas centenas de milhares de reais, educação de primeira para os filhos (futuros grandes empresários), viagens ao exterior, amizades influentes, os melhores profissionais e estabelecimentos médicos para o cuidado de suas saúdes, geladeiras e armários fartos das mais diversas e caras guloseimas, etc. São pessoas muito importantes. Estar ao lado de uma delas faz até com que nos sintamos algo próximo do nada. Não vemos a pessoa e sim o que ela tem. E o que ela tem reflete o que ela é.
Em seguida me veio a imagem de uma família pobre. Roupas rasgadas há muito recebidas usadas por outras pessoas (não ricas, mas menos pobres que as compraram na C&A parcelado em dez vezes). Moradores de barracos precariamente construídos em terrenos invadidos, sem saneamento e esgoto. Educação de terceira para os filhos (os que conseguem se manter na escola). Alimentação e saúde é a sorte quem decide pela vez do sim e do não. Se o que elas têm reflete o que elas são poderíamos considerá-las como pouco menos que os animais.
A velha questão do “por que tão poucos com tanto e tantos com tão pouco” não cala. Pensei também em como medimos as pessoas em um mundo capitalista como o nosso. O quanto damos valor a quem tem muito e desvalorizamos àqueles que tem pouco ou nada. O quanto nos sentimos intimidados diante de alguém identificado por nós como “importante” pelo que tem.
Lembrei daquele filme em que um homem muito bem sucedido ficava preso em uma ilha sozinho após um desastre de avião. Passou alguns anos naquela ilha sem contato com ninguém. Tudo o que tinha agora não valia de nada. Nessa ilha não adiantaria ter muito dinheiro na carteira ou na conta bancária. Não havia comunicação. Sozinho nessa ilha ele não é nada. Não há ninguém para admirá-lo, elogiá-lo, etc. Não há títulos acadêmicos. Ninguém está interessado se sua roupa é de marca ou não, nem ele. Ele tem que lutar para sobreviver. Sua barba cresce, sua roupa é única e o sapato tomou de um cadáver, vítima do acidente. Alimenta-se de coco e peixes conseguidos por suas próprias mãos. Naquele mundo qualquer pessoa seria bem-vinda para um bom papo (até uma bola Wilson). Inclusive aquelas que porventura tenham passado por ele despercebidas ou que até mesmo tenham sido desprezadas por ele por não terem nenhuma posse. Qualquer mulher que ele já tenha olhado com o olhar de desprezo julgando-a incapaz poderia ser inclusive sua esposa nesse seu novo mundo. Nesse mundo ele estava nu. Nu de tudo o que o tornava alguém importante. Nu de todas as suas posses.
Essa idéia de nudez é interessante. A nudez torna todos iguais. Se tivéssemos a experiência de observar pessoas ricas e pobres nuas juntas – Lembro de uma foto que causou escândalo: Foi um artista que fotografou milhares de pessoas nuas amontoadas – seria uma missão impossível separar ricos e pobres. Todos são iguais: seres humanos. Nascem, fazem xixi e cocô (perdão por não pedir perdão pela palavra), sangram, adoecem, riem e choram, sofrem e têm prazer, vivem e morrem. E está aí outra coisa que iguala todos: a morte. Em um dos cemitérios em que estive fiquei observando uma caveira e não consegui enxergar no esqueleto traços que me informassem se pertenceu a um rico ou a um pobre em vida. A morte torna todos iguais. Esqueletos são nus.
Observei também que as crianças não ligam muito pra esse negócio de posses. Junte várias crianças ricas com várias outras pobres numa sala cheia de brinquedos e elas farão amizades umas com as outras, brincarão juntas e não saberão que vivem em circunstâncias diferentes. Não saberão se a roupa do outro foi mais cara do que a sua (mais cara, o que é isso?). Mais tarde elas aprenderão que não devem ser amigas. Contato profissional talvez (patrão-empregado). Mas, enquanto isso não acontecer, a única coisa que as impedirá de se relacionarem serão os pais que já aprenderam a lição. Isso porque as crianças conseguem enxergar a nudez umas das outras. A nudez do “ter”.
Fico me questionando muitas vezes se somos seres tão inteligentes assim. Se de repente os animais não estariam mais evoluídos do que nós. Fazemo-nos escravos de nossas próprias criações. Toda nossa criação útil assumirá um dia um papel também estético discriminatório. Roupas que um dia foram úteis apenas para cobrir o corpo hoje expressam o poder aquisitivo e junto com vários outros acessórios e técnicas de produção determinam se o rapaz ou a moça é interessante ou não para namorar. Os automóveis que surgiram para estreitar o caminho entre uma pessoa e outra separam, através de seus vidros fechados, o mundo de “gente interessante” e “gente desprezível”. Cursos superiores considerados melhores são os que pagam melhor. Logo um médico e um advogado é muito mais do que um professor ou assistente social. É assim também que julgamos um político, que através de sua má fé causa a morte e desgraça de várias pessoas, mais inocente que um garoto que assalta um ônibus para alimentar sua família.
Como gostaria que fôssemos nus aos olhos uns dos outros. Que olhássemos para as pessoas como pessoas e não como proprietários. Aos de mais posses resta o desafio de reconhecer nos de poucas ou nenhumas posses a importância de um ser. Aos de poucas ou nenhumas posses também o desafio de saber que ninguém tem tudo. Que os ricos são pessoas que também tem suas necessidades, embora estas não sejam materiais. E que há oportunidades pertencentes apenas aos pobres da mesma forma que algumas cabem apenas aos ricos.

“...Quem é rico anda em burrico. Quem é pobre anda a pé. Mas o pobre vê nas estrada. O orvaio beijando as fulo. Vê de perto o galo-campina. Que quando canta muda de cor. Vai moiando os pés no riacho. Que água fresca, Nosso Sinhô. Vai oiando coisa a grane. Coisas que pra mode vê. O cristão tem qui andar a pé.” (Luiz Gonzaga – Estrada de Canindé)

Não desejo um mundo onde todos tenham as mesmas posses. Onde não haja ricos e pobres. Mas num mundo onde ser rico ou ser pobre não represente melhores ou piores oportunidades, mais ou menos direitos, muito ou pouco caráter, todo ou nenhum valor, ser ou não ser alguém. Num mundo onde todos aos olhos parecem nus.

10/04/2005

Viagem no Tempo

Por Bruno Montarroyos

Acabo de chegar de uma daquelas viagens em que a gente voa para alguns lugares distantes no tempo. Ora embarcamos em direção àquelas diversas lembranças deixadas por momentos vividos. São os caminhos já percorridos da vida. As lágrimas derramadas, o choro engolido, os dias corridos, que sem nos dar conta se vão. Caminho sem volta, a trilha perdida, jamais esquecida, por isso traz dor. Lembranças da infância bem vivida. Das alegrias sem fim, brincadeiras, diversões, nada de preocupações. Onde o passado e o futuro estão a serviço do “Dom” da vida. Presente e Dom são sinônimos, ou pelo menos seriam se não nos tornássemos adultos, transformando o Dom em presente, mas de grego. Presente adulto, esse filho maltratado do passado e escravo oprimido do futuro.
Trago boas coisas dessa terra. Lembranças de boas gentes. Lembranças de toda sorte. São tantas que não consigo nem carregar. Algumas é melhor deixar pra trás, pra conseguir melhor andar. Perdi algumas coisas. Achei outras. É bom achar as coisas. Ganhar...novos amigos, presentes, boas palavras... Difícil é perder. Um abraço amigo Moisés, voinho Manoel, vô Adehyldo, tia Linda, guardo vocês bem vivos nas minhas lembranças. Ex colegas de classe, prometi, verdade, nunca perder o contato. Um dia desses encontrei Léo. Era um amigão meu na 5ª série. Só andávamos juntos. Ia à sua casa e ele à minha. Faz quase 15 anos. Tanta coisa mudou. Hoje mal damos um oi. Olha lá, é o Rafa, era uma criança quando o conheci. Agora está homem feito. Não vou nem falar com ele que com certeza não vai lembrar de mim. Bons tempos quando ajudava a cuidar dele no ônibus da escola.
Quando viajo para o meu passado lembro que sou conseqüência dele. Na verdade sou o meu passado somado e passado no liquidificador.
Mas nem só de ré viverá o homem. As nossas viagens no tempo também perseguem o outro lado do rio. A impressão é de estender os pés no vazio, de onde virá o chão inesperado ou, pelo menos, outrora invisível. Viagem longa, destino incerto, como diria nosso poeta Rubem Alves. Nosso avião flutua num céu nublado onde a única coisa concreta e certa é a incerteza do abstrato. Perdas e ganhos me aguardam. Muitas coisas à minha espera. Ou sou eu à espera de muitas coisas. Aliás, está aí algo que não gosto: Esperar. Odeio filas e me incomodo com atrasos. Esperar...há alguém que goste? Mas se contido no ato de confiar está a confiança, ao esperar exercitamos esperança. E esta sim é uma bela palavra. Minha filha nasceu em um hospital chamado Esperança. Mal sabíamos nós que tanto iríamos precisar lembrar o nome do hospital em seu desenvolvimento. Tenho muitas esperanças na vida. Pessoais, familiares, profissionais, ministeriais, sociais, patrióticas, divino-reais. É no esperar que tanto abomino onde encontro minha identidade, minha razão de ser, a motivação da continuação do meu caminhar. Mas chega disso. Como disse, acabei de chegar de viagem e preciso descansar. Estou exausto. É necessário recuperar minhas forças. Para receber dia a dia meu presente (Dom da vida) em construção. Para enfrentar com esperança os desafios de cada sonho. Boa noite!!!

09/04/2005

Dor, nascimento, beleza

Por Bruno Montarroyos

(ref.: Foto com destroços deixados pelo Tsunami)
Uma onda gigante, um desastre enorme
Muito grito, desespero, muita morte
Nas fotos, amontoados, dezenas de milhares
Corpos, lixo em excesso de um destino sem sorte
Que é o homem, o que é a vida
Vapor que faz renascer a pergunta antiga
Por que viver, qual o sentido?
Coma bem, fique em forma e morra de qualquer jeito
O que vale a pena? Há alguma coisa?
Nasce, vive e morre. O que fica?
Todo sofrimento já se foi?
E quanto valeu enquanto esteve?
Com sofrimento nasceu pela dor
Viveu...para sofrer viveu
Morreu...pelo sofrer morreu
Deixou...para a nova geração deixou o sofrer
Mas do sofrimento também sai luz
As mais belas coisas nasceram da dor
Belos sentimentos fazem sofrer
Do sofrimento a beleza deve ter nascido do criador
Dor, nascimento, beleza
Herdeiros do dom de fazer nascer, criar
Herdamos o dom de sofrer
07/01/2005

A escravidão à Lei (Sistema)

Por Bruno Montarroyos

Pode alguma coisa criada para o benefício do homem tornar-se mais importante do que o próprio homem, voltando-se contra ele? Pode o remédio da cura tornar-se o veneno da morte? Pensemos num enfermeiro de posse de uma ordem para a medicação de um paciente. Ao chegar ao leito do paciente ele se depara com uma situação atípica. Ele percebe que, naquela situação, o paciente não resistirá à medicação. Entretanto, para que a ordem se cumpra, ele sacrifica o paciente. Pensemos também em um engenheiro que sacrifica vidas para economizar no gasto de materiais para um edifício. Pensemos em um professor que para sentir-se um pouco mais, humilha o aluno que considera uma ameaça. Pensemos ainda no aluno que se promove ou sente-se promovido à medida em que pisa em seus colegas de turma. Não que isso aconteça...mas imaginemos, só imaginemos que sim. Tudo isso são exemplos de coisas que ganham valor maior que o ser humano. Todas essas coisas expressam uma certa escravidão do ser humano a algum sistema que estabeleceu as coisas como maiores que os seres. Assim também se procede com os preceitos, regras, com a Lei, da qual todos nós somos chamados à escravidão: A escravidão à Lei.
Jesus se deparou com essa realidade. No evangelho segundo Marcos, os versículos 23 ao 28, do Capítulo 2, nos mostram como isso ocorreu. Consideremos os versículos 23, 24 e 27:

23 Num sábado, Jesus e os seus discípulos estavam atravessando uma plantação de trigo. Enquanto caminhavam, os discípulos iam colhendo espigas.
24 Então alguns fariseus perguntaram a Jesus: -Por que é que os seus discípulos estão fazendo uma coisa que a nossa Lei proíbe fazer no sábado?
27 E Jesus terminou: -O sábado foi feito para servir as pessoas, e não as pessoas para servirem o sábado.

Podemos identificar claramente o interesse de Jesus em mostrar que o ser humano vale mais que qualquer instituição.

Em um primeiro momento...

1. A escravidão à Lei nos torna defensores da Lei

O questionamento dos fariseus (v. 24) nos mostra que a escravidão à Lei os levava a um esforço para mantê-la, ainda que à custa de atos desumanos.
Chegamos ao seminário cheio de sonhos e boas intenções. A vida na igreja um dia provocou em nós motivações sinceras de fazer algo mais em favor do Reino de Deus. Muitos de nós deixamos muitas coisas em nossa vida para vir ao Seminário. Um outro curso superior ou o desejo por outro curso superior, família, planos, sonhos, etc. Ansiamos por uma preparação melhor para “ganhar pessoas para Cristo”, que é o slogam baseado em nossa ingênua idéia de evangelização. Ilusões, ilusões...
Algum tempo no seminário (de calouros para veteranos, conforme a tradição) nos vemos como integrantes do Show de Truman (filme), habitantes da Matrix (filme), civilizados do Admirável mundo novo (livro de Aldous Huxley), o homem na caverna de Platão (em seu livro A República).
...Descobrimos que estávamos apenas contribuindo para a manutenção da escravidão à Lei, contribuindo para a manutenção do sistema. Estávamos querendo proteger, defender, guardar a Lei. Mas a Lei foi criada para defender, proteger, guardar o ser humano e não para ser defendida, protegida, guardada por ele.
Notamos, então, que a nossa idéia evangelizadora de “ganhar almas para Cristo” na verdade era de “alcançar cada vez mais humanos para torná-los cada vez menos humanos”. Isso faz lembrar muitos pregadores que usam uma velha ilustração dizendo: “Um aluno certa vez perguntou ao seu professor, que era evangélico: - Professor, qual a melhor hora para aceitar a Jesus e livrar-se do inferno? O professor respondeu: - Cinco minutos antes de morrer. O aluno saltou de alegria, pois poderia ainda curtir muito a vida. O professor, então dirigiu-se a ele e perguntou: -Qual o dia e hora em que você vai morrer? E o aluno ficou desconcertado. – Como você não sabe e pode ser a qualquer hora, continuou o professor, a melhor hora para aceitar a Jesus é agora”. O pregador, então, dizia que é lógico que, se ele soubesse o momento exato em que iria morrer ou, de igual forma, se não existisse céu ou inferno, estaria era “curtindo a vida adoidado”. Esse tipo de pregação apresenta o evangelho como um fardo pesadíssimo. Como um voto de mortificação, que só vale a pena porquê “nossa vida não é aqui. Aqui é apenas uma passagem para a vida de verdade e eterna”.
Talvez a música de Gonzaguinha tenha mais a ver com o evangelho de Cristo do que muitas de nossas músicas ditas evangélicas: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será. Mais isso não impede que eu repita: É bonita! É bonita e é bonita!” Vida em abundância! Isso não representou em Jesus uma metáfora do Céu, mas uma realidade possível em vida humana e terrestre.
É preciso termos uma razão bela para justificar o “ser evangélico” que não a vida no céu ou o sofrimento no inferno. Essa razão é a própria vida, a vida abundante. O evangelho propõe uma vida muito mais bela e atraente do que a que a maioria de nossas igrejas têm oferecido através dele. Não é um conjunto de proibições, mas um convite à liberdade e à vida. O evangelho de Jesus atraía multidões. Os que não eram atraídos a participarem eram, geralmente, os que se consideravam muito religiosos. Jesus traz uma nova revelação, mais elevada, o vinho novo que termina rachando os odres velhos dos religiosos de sua época (conforme ilustração no versículo anterior – v.22). Eles se negaram a tornarem-se vasos novos que pudessem suportar a novidade do evangelho. O vinho novo do evangelho só pode ser conservado se os vasos da tradição estiverem se renovando constantemente. Para isso é necessário saber que nenhuma instituição é sagrada por si mesmo. As pessoas é que são sagradas.

Em um segundo momento...

2. A escravidão à Lei se torna alvo de nossa crítica

Jesus apresenta nos versículos 25 ao 28 sua crítica racional (que busca a razão das coisas). Ele procurava, através dessa crítica, trazer à tona o sentido da Lei, em detrimento de sua letra.
Algum tempo no seminário e começamos a questionar muitas coisas. Coisas até demais. Viajamos em um mundo de idéias. Fazemos nossas intermináveis críticas. Filosofia, teologia, psicologia, crítica bíblica (mas, pode alguém criticar a Bíblia?!!), etc. Nossas críticas chegam aos extremos de esquecermos até a realidade. Nos colocamos numa alienação ideológica.
A crítica é um instrumento importantíssimo e extremamente necessário a todos nós, mas precisamos cuidar para que ela não se torne um fim em si mesmo. A crítica precisa de um alvo maior do que ela, senão ela mesma será a Lei que nos escraviza. Seremos escravos da crítica da escravidão da Lei. A crítica pretende elucidar, fundamentar, enraizar conceitos anteriormente recebidos de forma apriorística.
Nossa crítica deve estar a favor do resgate de uma essência. Quando Jesus criticou o sistema de sua época não foi pelo simples prazer de criticar, mas pelo interesse de fazer emergir um sentido mais profundo de tudo aquilo.
Nesse período de Seminário em que nos colocamos em favor dessas construções críticas, muitos de nós (a maioria) mergulhamos num mar de dúvidas e frustrações. É uma fase necessária ao desenvolvimento, mas não pode ser uma fase estacionária.
É importante que critiquemos todas as coisas. Muito mais importante é que direcionemos essas críticas a uma finalidade maior: o ser humano, a vida. Nenhuma instituição nossa pode ser estimada acima do ser humano, da vida, nem a crítica.

Em um terceiro momento, ouvimos a voz do sistema: -Cale-se!

3. A escravidão à Lei não pode nos calar

O sistema se encarregou de calar Jesus, matando-o por sua aparente contradição à Lei.
Ao aproximar-se do final do curso no seminário, somos deparados com uma situação muito complicada. Como dissemos anteriormente, muitos de nós deixamos tudo para trás para encarar essa missão. Agora, já tendo caído de nossos tapetes mágicos e, muitos agora com uma nova família, que assumira durante o curso. Pensamos: Se enfrentar o sistema, como sustentarei minha família? Como me sustentarei? O que farei?
Tais dúvidas nos colocam numa situação em que temos de tomar sérias decisões:
Podemos fingir, inclusive para nós mesmos, que concordamos com o sistema. Nos submetemos a ele, buscando uma posição confortável e de reconhecimento. Muitos escolhem este caminho e não os culpamos. São vítimas do sistema. Eles começam a travar um discurso de que psicologia, teologia, filosofia, crítica, tudo é vão. Só a prática importa. As pessoas querem ação. Elas querem o que esperam. E o que esperam não é o que o pensar crítico pode oferecer. Querem receitas prontas. Querem, sem o saber, continuar escravas, pois isso é cômodo.
Outros preferem abandonar totalmente o sistema estabelecido, a denominação e mergulhar cada vez mais profundamente nas suas críticas, agora de solidão. Esses não são tantos quanto os outros. Eles distanciam-se totalmente da realidade, fazendo de todas as suas idéias utopias. Ficam sozinhos com as suas idéias e desprezam uma finalidade maior que sua crítica.
Uma terceira opção seria a busca do equilíbrio entre o ideal e o real, entre as disciplinas acadêmicas e a prática necessária. As pessoas que seguem por esse caminho? São pouquíssimos.
O sistema manda calar, adaptar-se a ele. A música de Chico Buarque de Holanda bem pode ser aplicada a esse contexto: “De muito gorda a porca já não anda. De muito usada a faca já não corta. Como é difícil, Pai, abrir a porta. Essa palavra presa na garganta...Pai, afasta de mim esse cale-se”. A porca e a faca são esse sistema. Foram meios que se tornaram fins, foram formas que se tornaram essência. Uma religiosidade superficial causando a perda da relevância essencial do cristianismo...CALE-SE!...
Mataram Jesus. O cálice de Jesus foi tomado por questão de honra (não se dobrou ao sistema). Sócrates tomou o seu cálice de cicuta por questão de honra (não se dobrou ao sistema). O sistema quis calar Truman com uma tempestade. A matrix quer calar Zion. A civilização baniu Bernard Marx e Hemholtz Watson, dois personagens do Admirável mundo novo, para uma Ilha longínqua, por terem se negado a calar. O homem que volta à caverna de Platão é convidado a calar. CALE-SE!
O seminarista desabafa “como é difícil, Pai, abrir a porta. Essa palavra presa na garganta...” Como é difícil expressar nossa crítica. Principalmente quando pessoas a quem amamos (Pai, Mãe, família) já são vítimas do sistema e não aceitam nem aceitarão suas idéias. CALE-SE! O seminarista clama “Pai, afasta de mim esse Cale-se”. Esse é o nosso grito, digo, deve ser: -Afasta de nós esse CALE-SE!
Dizem que felicidade e liberdade são incompatíveis. Que sonhos não entendem de realidade. Mas é possível um equilíbrio. Libertos da escravidão à Lei, valorizemos o ser humano, a vida. Vivamos intensamente a vida. Levemos vida às pessoas. E aí nos nossos últimos dias poderemos ter lembranças de contentamento por nossas realizações no lugar de lembranças de lamento por nosso egoísmo e covardia.
Todos nós temos um potencial enorme para iniciarmos um processo revolucionário de mudanças. Um processo que traga de volta a essência do que Jesus ensinou através de suas palavras, vida e morte. Um processo que traga de volta a vida às pessoas. Vida com todas as suas instâncias (sofrimento e prazer, alegria e lamento, angústia e contentamento, certezas e dúvidas, espiritual e humano). Vida completa. Não podemos alcançar a realização plena desse processo, mas podemos iniciá-lo.
Pai, afasta de nós esse CALE-SE!
“Pois não podemos deixar de falar daquilo que temos visto e ouvido”. (Atos 4:20)

Mensagem no culto-capela do STBNB em 23/10/2003

O Sexto Sentido

Por Bruno Montarroyos

Leia, por favor, esta carta, entenda-me, peço, e ajude-me...
Estou só
A angústia preenche todo o meu ser
Sinto em meu corpo um pesar acentuando-me a fraqueza
O céu parece sombrio e triste
A brisa que passa parece levar consigo toda a minha esperança
Os dias passam como um pássaro errante que não se pode prever onde pousará
Todos parecem não me enxergar ou não perceber minha carência
Tenho medo
Ao lado de meu amigo Hoje fujo desesperado do maldoso Ontem
Este quer tirar-me o vigor fazendo-me temer sempre o fantasma Amanhã
Ouvi dizer que poderia ajudar-me, mas como se nunca o vi?
Espere! Nunca vi também Platão ou Sócrates (por Platão), Homero, Dante ou Kant, Michelangelo, Bach, Mozart e tantos outros, digo, os vejo sim
Vejo-os por suas obras magníficas
Da Vinci, Raphael, Van Gogh e outros artistas incríveis comparados a ti tornam-se apenas reprodutores das tuas obras
Sim eu te posso ver, mas nunca pude tocar-te ou sentir o teu toque
Talvez esteja enganado, ou melhor, estou, pois sou tocado pela brisa que mandas
Posso senti-la em todo o meu corpo
Posso sentir as águas marinhas ou fluviais envolverem-me ao mergulhá-las
Sim, sinto o teu toque, e agora acordo, abro os olhos
Posso também sentir os perfumes que criaste
Flores, relva, perfumes de todas as cores, uma natural aquarela aromática
Sinto o sabor das delícias mil criadas por ti para o nosso paladar
Posso ouvir os sons multiformes dessa vasta natureza
Águas, pássaros, animais diversos, uma orquestra sinfônica de uma harmonia inigualável
Isso poderia já ser tudo, mas dotaste-nos também de um sexto sentido
Com este posso ver-te melhor, ouvir o doce tom da tua voz, sentir o sabor de tua companhia
O cheiro suave da tua paz e o teu toque de amor
E mesmo quando me faltarem todos os sentidos, posso crer que estás ao meu lado
Posso conversar contigo, converso contigo
Agora não estou mais só
Sinto paz, alegria, tudo é belo
O céu abriu-se em esplendorosa e magnífica beleza
A brisa traz-me de volta a esperança
Meus dias despontam tal como a flecha disparada pelo arco em lugar certeiro
A força de nossa relação completa-me, ajuda-me
A viver bem com meu amigo Hoje sem fugir do maldoso Ontem e
Correndo ao encontro do “não mais fantasma” Amanhã com esperança e segurança
Obrigado, meu Deus Pai, Amigo presente que tantas vezes
Com o filho fazendo-se ausente
Continua pra sempre presente ao meu lado.

Matando Deus para que Ele viva

Por Bruno Montarroyos

É muito comum ouvirmos no meio evangélico a apologia acerca da necessidade de crer em Deus, ou seja, em sua existência. Muitos de nós, para não dizer a maioria, cremos porque nos foi apresentado como algo necessário para alcançarmos um benefício especial, ou seja, cremos por conveniência. Quero defender aqui, não a necessidade de crer na existência de Deus, mas a necessidade de duvidar, não crer nessa existência (não me refiro à existência absoluta de Deus, mas à existência ofuscada pelos nossos pré-conceitos, ou seja, livrar-se da nossa idéia atual sobre Deus), claro que metodicamente, para crescermos rumo a uma fé mais genuína, mais firme, como uma casa construída sobre a rocha. Afinal, o que é crer em Deus? Aceitar cegamente o que nos é pregado? A fé em Deus precisa ser ininteligível? Acredito que a expressão “pela fé”, tão usada por nós, não tem sido muito bem empregada em nossos dias, como também não foi em outras épocas. Essa expressão não pode justificar uma assimilação de valores meramente místicos, descartando todo e qualquer uso da razão a fim de identificar e conhecer Deus, alienando a fé que precisaria ser firme e segura.
A fé firme acerca da existência de Deus, da qual estou falando, penso podermos alcançar através de um ceticismo metódico, como podemos notar em Descartes1, que tem algo a nos ensinar em matéria de obtenção de conhecimento bem fundamentado e convicto. Livrar-se ao máximo da visão atual instalada em nós acerca de Deus é indispensável nessa busca pela fé genuína. Temos como exemplo a declaração de Paul Tillich (em referência à obra “Assim falou Zaratustra”, de Nietzsche, quando este diz “Deus está morto”) de que o seu conceito tradicional de Deus estava realmente morto.2 Em que se fundamenta a imagem que temos atualmente de Deus? Se Deus se mostrasse de forma concreta a cada um de nós, poderíamos ter um perfil mais confiável, mas ninguém jamais viu Deus de forma concreta. O problema, com o qual nos deparamos, é que o homem sente uma necessidade profunda de deduzir o que ele não pode explicar racionalmente. Daí alguns defenderem que Deus não criou o homem à sua imagem e semelhança, mas foi o homem quem criou Deus à sua imagem e semelhança. Apoiamos todo o nosso conhecimento sobre Deus na sua revelação narrada nas “Escrituras Sagradas”. A revelação de Deus é o meio que nos possibilita conhecer acerca de si. As Escrituras são o instrumento através do qual podemos receber essa revelação (digo isso baseado em nossa “tradição teológica”, já que esse texto não pretende incentivar-nos a libertarmo-nos dos pré conceitos em relação às Escrituras e sim a Deus).
Podemos notar nas Escrituras uma evolução no que diz respeito a essa revelação. O Deus do Antigo Testamento, entre outros feitos, ordena ao “povo escolhido” matar outros povos, no sentido de possuir as terras destes, ou seja, matar para possuir terras alheias. No Novo Testamento, esse mesmo Deus ensina a amar até os inimigos. Deus não pode mudar, pois uma mudança significaria que algo outrora estava errado e foi preciso um conserto, o que caracterizaria um ser imperfeito, anulando sua posição de Deus. Logo, se ele não mudou, os homens é que o perceberam diferente em diversas épocas e momentos, ou seja, o agente passivo da revelação de uma época tem uma percepção divina aquém dos de épocas posteriores. Nesse caso, a pergunta é: para onde aponta a linha de evolução da revelação de Deus ao homem? E aqui apresento duas opções a serem pensadas. 1. A linha de evolução da revelação de Deus ao homem aponta para o futuro intermitentemente. Isso implicaria dizer que na época de Jesus a visão de Deus era bem mais próxima do real do que na época de Abraão, bem como hoje essa visão está ainda mais próxima do real do que na época de Jesus, reservando ao futuro uma visão ainda mais próxima. Talvez não consigamos aceitar essa opção como resposta, pois ela anularia a condição de Jesus ser o próprio Deus encarnado. Para aceitá-la como provável precisaríamos livrar-nos da idéia tradicional a respeito de Jesus, mas isso não vem ao caso. 2. A linha de evolução da revelação de Deus ao homem aponta para Jesus. O que implicaria dizer que passado, presente e futuro devem apontar para Jesus, em matéria de evolução da revelação de Deus ao homem, ou seja, em Jesus está o máximo que podemos conhecer sobre Deus, por ser ele mesmo o próprio Deus. Fechando os olhos para a liberdade dos pré conceitos a respeito de Jesus e das Escrituras, correremos desesperados para a segunda opção. Considerando-a, então, como “a opção correta”, teríamos que sair em busca do Jesus mais original quanto for possível resgatar. Para isso precisaremos procurar Jesus por trás da interpretação, ou mesmo interpretação da interpretação daqueles que o relatam e ainda por trás de toda a tradição e contexto histórico dos escritos que possuímos3. É esse Jesus que devemos conhecer para que enxerguemos o Deus que ele aponta, ou seja, o máximo que se pode conhecer sobre Deus na dimensão em que vivemos.
No entanto, em detrimento dessa resposta, temos algumas dúvidas (metódicas) que nos ajudam a refletir mais: Será que Deus nos obrigaria a acreditar em relatos feitos por homens iguais a nós, do nascimento, vida, morte e ressurreição de um homem que também era Deus, para que pudéssemos conhecê-lo, sendo isso necessário para definir entre uma “salvação ou condenação eterna”? Se Deus é quem pregamos ser, por que amando a todos indistintamente, bem como querendo que todos sejam salvos, tornaria difícil acreditar na sua existência através do uso da mente que ele nos deu? Talvez as Escrituras não sejam a única forma de percebermos a revelação de Deus. Talvez Deus se deixe conhecer de uma forma mais natural, através de sua criação (não estou defendendo a teologia naturalista, apenas não a estou dispensando na íntegra). Podemos notar que talvez esteja nos faltando um pouco de pensamento indutivo a respeito de Deus. Limitamo-nos na vagueza do pensamento dedutivo, mergulhando num mar de dúvidas no qual poderemos nos afogar ao encher da maré.
Acredito que a precaução a ser tomada para que não nos afoguemos nesse mar de dúvidas é justamente o que tentei expor nessas poucas linhas: livrar-se de todo o pensamento pré-conceituoso sobre Deus (matá-lo) e, de um modo mais indutivo e menos místico, procurar conhecê-lo até onde for possível a nós, simples seres humanos (isso é torná-lo mais vivo dentro de nós). Como chegar a esse conhecimento? Matando Deus para que ele viva.

2º Semestre de 2001