quarta-feira, 22 de julho de 2009

Novo Dicionário da Língua Parlamentar

Por Bruno Montarroyos

As novidades na câmara e senado têm despertado o interesse de todo o povo brasileiro. Cada dia uma surpresa advinda desse fantástico mundo do entretenimento jornalístico. E cada novo espetáculo relega o anterior ao esquecimento. Não se fala mais no Castelo e nem na verba indenizatória do Edmar Moreira. A notícia sobre a possibilidade de que o processo não fosse arquivado, caso 51 deputados assinassem um pedido de recurso, foi levemente veiculada. O desinteresse por parte dos deputados não foi nenhuma surpresa. O Nazareno livrou-se do cálice, renunciando o cargo de relator na Comissão de Ética, decepcionado com a promoção da impunidade. Foi como dizer: - Já que a Ética foi renunciada, renunciarei a sua Comissão também.

Política é uma arte difícil de entender, pelo menos para um ignorante como o que vos escreve. Ele tem se esforçado e Deus é testemunha disso. Toma-se uma palavra para tentar entende-la melhor. Que significa a palavra deputado? Vem à mente a palavra depurado, que significa “tornado mais puro”. Deputado então significaria... Hum, vejamos... Melhor deixar para lá, não é? Não! Vamos brincar de criar palavras ou então de empregar palavras já existentes com outros sentidos. Dizem ser bom para desabafar. E olha que o povo brasileiro precisa desabafar. Pôr para fora a revolta provocada por uma gestão política tão desordenada: uma má diGestão.

Existe filiação partidária. Como se chama quem se filia a um partido? Não importa! Chamaremos filhopartidário. Filiação por filiação, muitas adoções políticas são feitas. E novos modos de relações filiais surgem como, por exemplo, filiações nas pessoas que ocupam os cargos políticos. Há filiação ao senador fulano, ao deputado sicrano e por aí segue. Surgem assim os filhosenatários, tipo de filiação já superior ao filhopartidarismo. Seguida dos famosos filhodeputários, essa pode representar uma filiação ainda mais intensa que o próprio filhosenatarismo. E toda a senadoria está cheia desses diversos tipos de filiação, assim como toda a deputaria.

Sempre que a casa está cheia, deputaria em massa, os acordos filiateiros pululam incessantemente e até os verdadeiros filhos de deputados têm os seus interesses contemplados. E o filhodeputarismo reina absoluto, de castelo em castelo, entre os que se filhodeputariam sem qualquer pudor. Luto! Luto! Toda essa filhodeputaria deixa o povo brasileiro completamente... angustiado. E da angústia nasce a pergunta: Que deputaria é essa?

Que deputaria é essa?
Que não segue os Nazarenos na missão
Que judia de um povo que padece
Filhodeputariando nosso pão

Do próprio interesse enche a casa
Deputa a esmo o encargo
E aos cidadãos que lhe deram o doce
Imputa-se o veneno amargo

Se estás cheio
Deputarias tu
Teu valoroso voto
A um prato raso de angu?

E num contexto assim
Bastante infilhodeputado
Cabe a cada um de nós
Prover um outro resultado

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O castelo indestrutível

Por Bruno Montarroyos

Era uma vez uma cidade onde existiam apenas duas famílias e uma deusa cega chamada justiça. A cidade produzia alimento suficiente para todos. Havia riqueza suficiente para que toda a gente vivesse muito bem. Mas o representante de uma das famílias, chamado Edrio Moreira, resolveu se apropriar de toda a riqueza da cidade. Invadiu as propriedades da outra família roubando-lhe tudo o que tinham. Construiu, então, para a sua família um castelo riquíssimo e vivia muito bem. À outra família, representada por um homem carinhosamente apelidado em um dialeto indígena, Pagacontas, restou construir para si um barraco com os destroços que sobraram no lixo do suntuoso castelo da família Moreira.

Certo dia, vendo a família castigada por uma grave fome, o senhor Pagacontas ficou à espreita da senhora Moreira, esperando um momento em que o destino pudesse lhe dar uma pequena ajuda. Foi então que ele a viu passar com sacolas cheias de alimentos. Aproximou-se silenciosamente e, em um só impulso, enfiou a mão dentro de uma das sacolas tirando-lhe uns pães e correu com todas as suas forças para levar àqueles seus o produto tão esperado. A deusa até então cega, dona justiça, fica momentaneamente curada, condenando o senhor Pagacontas à morte e toda a sua família à miséria ainda maior que a atualmente vivenciada.

Os personagens dessa história não são totalmente fictícios, nem tão pouco a história. Porque será tão difícil entender os motivos do senhor deputado Edmar Moreira ter sido absolvido pelo conselho de ÉTICA da câmara dos deputados? Afinal, roubar alimento para socorrer uma família passando fome é que é crime de verdade que merece punição. Desviar R$ 180.000,00 por ano só de um benefício chamado Verba Indenizatória, pago pelo povo brasileiro, a família Pagacontas, isso não é nada grave. O coitadinho não fez nada de mal.

Para ajudar a esclarecer um pouco mais essas dúvidas basta acessar o site: http://www2.camara.gov.br/transparencia/vi, onde é possível ver quanto cada deputado gastou por mês dessa verba. Claro que não devemos consultar de fevereiro de 2009 para cá. Deve-se consultar antes disso. Antes da bomba estourar. É possível pesquisar pelo seu estado e ver apenas os deputados que estão representando a sua terrinha. Talvez uma olhadinha nesses gastos esclareça um pouco do porque absolver o anjinho do Castelão. Quem pode atirar a primeira pedra? Quem arriscaria ser o próximo? Ouço uma voz dizer que se forem achados pelo menos 51 justos entre esses deputados, ainda pode haver salvação a essa Sodoma e Gomorra.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Quem matou Michael Jackson?

Por Bruno Montarroyos

É curioso observar a forma como se dá o jogo de poder no mundo em que vivemos. Informação é uma palavra-chave. A concentração dessa informação é uma realidade. São menos de meia dúzia de corporações controlando 90% dos meios de comunicação mundiais. E essas pouquíssimas e gigantes corporações demonstram estar de acordo entre si. Uma grande pergunta em um contexto como esse seria: É possível saber a verdade sobre as coisas?

Michael Jackson abusou sexualmente de algumas crianças, diz a grande mídia. Após a sua morte, alguma criança já adulta nega tudo afirmando ter sido obrigada pelos pais a sustentar a calúnia. Qual a verdade? Talvez não seja possível saber a verdade sobre o abuso das crianças, sobre a sexualidade do astro ou mesmo sobre a causa de sua morte. Mas algumas verdades estão bem na cara. Não importa a vida de quem seja destruída. Não importa a ética ou o bem-estar social em um mundo prostrado diante do seu maior ídolo: O capital. E quem detém o poder e a concentração da informação molda a verdade conforme a sua própria conveniência, da forma que lhe der mais lucro.

Um aclamado jornalista brasileiro chamado Aloysio Biondi, in memorian, afirmou que depois de 42 anos de jornalismo e tendo enfrentado a ditadura, nunca viu se mentir tanto como no jornalismo atual. No documentário The Corporation, uma publicitária, ao ser questionada sobre a ética em manipular crianças a se tornarem consumidoras compulsivas, responde que esse é o seu trabalho e se é bem feito não há necessidade de se considerar qualquer ética.

O lado mais triste de toda essa história é que qualquer produto só poderá se tornar um sucesso de vendas se houver quem o compre em massa. E parece que mentiras estão entre os produtos que mais vende, ao lado de boatos e fofocas. E se for a respeito de alguém famoso melhor ainda. As corporações da informação não tem qualquer interesse em saber quantas vidas serão leve ou gravemente prejudicadas. Só lhes importa o retorno monetário que a notícia propiciará. E nós, consumidores diretos ou indiretos desse produto corrompido, poderemos estar contribuindo fortemente com essa grave subestimação de nossas capacidades intelectuais.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Uma Viagem à Alterlândia


Por Bruno Montarroyos

Que cena espetacular aquela! Ônibus e bicicletas circulando lado a lado na mais perfeita harmonia. Não havia ciclovias. As mesmas estradas eram solidariamente compartilhadas por todo o tipo de veículos e o trânsito fluía livremente. Havia pouquíssimos carros particulares. Nunca pensei ver um transporte público tão eficiente em uma cidade tão grande como aquela. – Boa noite, senhor, é um prazer tê-lo aqui, disse o motorista do ônibus que acabara de entrar. Pensei que ele tinha me confundido com alguém importante. Logo depois perceberia que era a forma que ele tratava a todos, falando sempre com muita simpatia. Perguntei-lhe como é que eu poderia pagar, já que não vi o cobrador. Ele sorriu com uma expressão desconcertada e respondeu: - Já está pago, senhor: os impostos, lembra? Não discuti e logo sentei sem entender direito o que se passava. Desci numa parada em frente a um hospital e resolvi conhecer. Pela fachada pensei se tratar de um desses enormes hospitais particulares de luxo a que tem direito apenas aqueles que podem pagar por planos de saúde caríssimos. E de fato era um hospital de luxo. O atendimento era perfeito. Os funcionários pareciam estar realmente unidos no importante serviço de recuperação daqueles pacientes. Perguntei a uma moça que estava saindo se aquele era realmente um hospital particular. Ela franziu a testa e repetiu as minhas ultimas palavras em tom de interrogação: - Hospital particular? Senhor, perdoe-me, mas não existe hospital particular. Hospital é para todos, não pode ser particular. Saí daquele lugar e sentei em um banco onde havia um casal de velhinhos também sentados. Eles pareciam um casal de namorados e decidi interrompe-los um pouco para tentar sair daquele emaranhado de dúvidas em que me metera. Narrei-lhes a minha experiência no ônibus e no hospital e perguntei a eles se aquela cidade sempre foi assim. Eles me falaram que apenas os velhos poderiam me responder isso por experiência própria, pois teriam vivido em uma época em que as coisas eram bem diferentes. Disseram-me que tudo mudou quando o povo resolveu exigir que a carreira política fosse almejada com outras intenções e para isso estabeleceram algumas regras para as próximas eleições. Os candidatos eleitos para assumirem os cargos deveriam se adaptar a novas condições. Nenhum representante do povo pertencente aos poderes executivo, legislativo ou judiciário pode, enquanto estiver sob a investidura do cargo, se utilizar livremente de transporte particular, exceto por um dia em cada semana. Deverá utilizar a rede de transporte público como qualquer outro cidadão. Também não pode possuir plano de saúde e nem usufruir serviços de hospitais que não sejam públicos. Isso se aplica também à sua família. Seus filhos serão obrigados a estudar em colégios públicos e não terão qualquer prioridade na obtenção de vagas. E as condições impostas caminhavam nesse sentido de fazer com que os políticos dependessem do sistema que eles foram escolhidos para administrar. O povo decidiu isso porque não tinha sentido eleger representantes que não tivessem as mesmas necessidades do povo. E a partir daí os serviços públicos relacionados à educação, saúde, transporte, segurança, tudo enfim, começaram a melhorar e naturalmente caiu a procura pelos serviços oferecidos pela iniciativa privada, relegando-a ao esquecimento. Isso fez com que fossem reduzidos os desvios de verbas e outras formas ilícitas de ganhos pelos políticos, já que eles não queriam arriscar a si mesmos e aos seus dependerem de um serviço ruim na área da saúde, por exemplo. Aquele casal de velhinhos me disseram que até as eleições foram mais tranqüilas, sem muita disputa e as pessoas que se ofereciam como candidatos eram pessoas de fato comprometidas com o interesse de lutar por uma vida mais digna a todos. Quando acordei foi impossível não pensar: Já que os nossos impostos pagam passagens aéreas para esses nossos representantes e suas famílias passearem, vamos exigir que chegue às mãos de cada um deles passagens com destino a um mundo melhor para o povo a quem eles deveriam servir. Uma viagem que saia da Egolópolis onde eles estão até essa terra sagrada que conheci em sonho e que se chama Alterlândia.