sábado, 30 de maio de 2009

Penumbra

Por Bruno Montarroyos

Uma vela acesa ao meu lado
Traz uma faísca do passado, amor
Luz silenciosa que permeia
De beleza tudo o que rodeia

A escuridão que esconde os seus
Tesouros mais secretos
Ofuscados pelo excesso
Do Fulgor da luz dos refletores
Sóis que roubam a essência
Mais profunda dos detalhes
Que essa penumbra pode dar


Sentado à meia escuridão, parcialmente interrompida por uma pequena vela acesa sentada ao meu lado no sofá de casa. Percebo que os objetos ao redor da luz de uma vela trazem uma beleza que uma luz mais intensa não pode proporcionar. A quantidade de informações que se tem dos objetos é bem menor sob a luz de uma pequena vela, mas a profundidade das informações é inigualável. Uma luz elétrica de forte intensidade como as que usamos apresenta todos os objetos ao seu redor no mesmo plano. Tudo muito bem iluminado. Dependendo da quantidade destes, ficamos à nossa frente com um sem-número de coisas com as quais podemos nos distrair. São fontes iluminadas implorando por nossa atenção. Uma vela acesa não tem um alcance luminoso capaz de descobrir a nós tudo ao mesmo tempo. Ela não tem o poder de simular na noite a luz do dia. Para descobrir o universo ao nosso redor é preciso que nos desloquemos conduzindo a luz da vela junto a nós. E assim a sua luz nos apresentará os detalhes de cada objeto. Detalhes que passariam despercebidos se tivéssemos todos ao mesmo tempo à nossa mira. Uma descoberta gradativa forçando-nos a dedicar mais atenção aos objetos mais próximos revelados pela fraca luz. A vela geralmente traz consigo o silêncio. A pouca luz, poucas coisas para se distrair por vez, junto com o silêncio, trata-se de um convite para viver o presente com mais intensidade. Sim porque se nos imaginarmos numa caminhada. Uma estrada plana, longa, cheia de atrações, pessoas, paisagens, oportunidades, experiências diferentes. Imaginemos essa caminhada à plena luz onde você consegue ver as coisas que só conseguirá alcançar em algumas horas. Podemos dizer que você está enxergando o seu futuro. Seus olhos estão já se distraindo com motivos que só no futuro estarão próximos a você. Você os vê bem longe na estrada à sua frente. E é muito provável que a distração com essas coisas pertencentes ao seu futuro tire de você a oportunidade de enxergar e participar de tudo o que já está diante de você. O seu presente. Essa mesma caminhada na escuridão, parcialmente interrompida por uma pequena vela acesa, lhe obrigaria a reparar mais naquilo que está mais próximo. Pois o futuro só seria revelado quando a pequena luz estivesse presente. Quando você pudesse de fato participar daquele momento aí sim ele estaria à sua vista. Enquanto isso você seria obrigado a viver o presente com tudo o que ele oferece. Nós humanos somos muito criativos. Criamos tanta parafernalha, das quais nos tornamos dependentes, que muitas vezes é difícil saber dar importância às coisas certas. Um dia já vivemos satisfeitos apenas com comida e companhia. Hoje nós temos à nossa vista uma quantidade e variedade enorme de coisas que queremos ter para que nos consideremos realizados. Talvez uma pane global que roubasse toda a energia da terra conseguise nos dar a oportunidade de reaprender quais são as coisas mais importantes. Já simulou como seria? Nenhuma energia elétrica. Um mundo sem luz elétrica, sem TV, sem rádio, sem computadores, sem celular... Assim aprenderíamos a dar mais valor a tudo aquilo que está bem pertinho de nós, incluindo aqueles que nos amam e a quem amamos também.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Retratação

Por Bruno Montarroyos

Cláridas belezas!
Já não vejo
As cores-luz do dia
Lembranças de alegria
Pegadas no vazio
Já não vivo

Sugaram-me as forças
Já não fujo
Tornei-me logo em réu
De um crime contra os céus
No agonizar da dor
Já não morro

Não vejo, não vivo, não fujo
Já não sou
Moldado à vontade alheia
Não morro pelo que corre na veia
Convenientemente político
Já não Eu

20/07/2004

domingo, 1 de março de 2009

A Epopéia de Carpenaldo: Uma jornada em busca da humanidade perdida

Por Bruno Montarroyos

PARTE I - Tábua II

Os Monges


Já passavam das cinco da tarde quando Carpenaldo voltava do Alto da Sé, em Olinda, em direção à sua casa. Descia pela ladeira da Travessa Luiz Gomes, caminhando, na companhia de seu amigo mais velho Dionísio. Passaram pela pequena praça Dantas Barreto e em cinco minutos já estavam na esquina da Rua do Sol com a Floriano Peixoto, onde ficava a casa da avó de Naldo, sua casa também. Lá o aguardava dona Josefina, acompanhada de duas visitas inesperadas. Eram dois homens trajando vestes de monges. Vestiam uma espécie de roupão grosso cor de vinho escuro que descia até os seus pés e com mangas compridas e folgadas. Uma corda grossa os abraçava à altura de suas cinturas, fechando o roupão como um quimono. Junto ao pescoço caia uma cobertura para a cabeça, semelhante às encontradas em capas de chuva. Após se despedir de Dionísio, Naldo se depara com essas duas figuras em sua casa, cuja aparência lembrava a própria caricatura da morte, exceto pela falta da foice peculiar que carrega à mão. - É ele, disse Dona Josefina aos dois visitantes enquanto apresentava o seu neto. - Venha cá, menino, estes homens estavam te esperando. Você irá com eles. Acho que vai ser o melhor para você. Carpenaldo ficou estático. Todo o seu sangue parecia ter fugido de repente. Não poderia ser uma experiência real que estava vivendo naquele momento. Primeiro não sabia explicar os sentimentos que tomaram o seu pequeno corpo quando se aproximou daqueles dois homens estranhos, mesmo antes que a sua avó pronunciasse aquelas palavras sobre a sua iminente partida. Ao se aproximar daquelas visitas misteriosas Naldo olhou rapidamente para trás com a intenção de vislumbrar ainda o distanciar de seu amado amigo Dionísio. Mas foi tomado por um sentimento repentino de repulsa daquele companheiro até tão recentemente venerado. Olhava em volta para tudo aquilo que outrora provocara dentro de si uma explosão de prazeres dos sentidos, mas tudo agora parecia sem vida, sem cor, sem magia. E toda essa mudança surgiu instantaneamente quando ele chegara à presença daqueles dois personagens insólitos. Ao lado desses sentimentos repulsivos diante do seu mundo outrora belo, juntava-se um sentimento de profunda admiração e atração pelos seus visitantes aquele dia. Parecia emanar deles uma aura encantada que trazia à Carpenaldo, ao mesmo tempo, uma sensação de confiança irrestrita, bem como de um desejo irresistível de segui-los para onde quer que fossem. Ao ouvir a sua avó anunciar que ele deveria partir com aqueles desconhecidos, apesar de toda a força que o impulsionava àquele destino, ficou a se perguntar as razões de dona Fina em entregá-lo tão repentinamente a um futuro tão duvidoso. Lembrou-se logo de um fato acontecido por aqueles dias e que poderia muito bem ser a explicação que tanto precisava naquele momento. Voltava de mais uma de suas aventuras com o seu companheiro inseparável Dionísio. Ao entrar em casa sua avó teria percebido a possibilidade de seu neto indefeso estar portando material impresso não adequado à sua perfeita educação cristã, muito menos à sua idade. Naldo teria passado por ela, naturalmente, sem medo de estar contrariando quaisquer preceitos morais - se é que possuía alguma idéia sobre essas coisas, portando uma revista com fotografias de sexo explícito, fruto de uma de suas conversas com o seu amigo Baco – assim chamava Dionísio por achar complicado demais a pronúncia de seu nome polissílabo. Recolhido em seu canto no interior mais profundo daquela casa, entre os ecos dos motores que roncavam na Rua do Sol e o silêncio que conduzia a calma melodia do encontro das ondas com aquela costa ali tão perto, Carpenaldo viajava por entre as páginas mágicas da mais antiga arte dos prazeres humanos. Era como um descortinar de um mundo até então desconhecido, místico e anunciador de uma ludicidade tão intensa, profunda e ilimitada quanto o seu estado de admiração diante de tamanha novidade. E foi exatamente no auge dessa incandescência sensitiva que o surpreendeu o som ensurdecedor de censura da sua avó protetora que até então custava a acreditar em cena por demais assombrosa: -O que é isso, garoto! Que coisa horrorosa é essa que você está vendo? Inocentemente, com a certeza incontestável de que vó Fina estaria bastante equivocada quanto ao conteúdo do material em suas mãos, Naldo, recuperando-se do susto provocado por aquele estrondo sonoro de furor, responde com firmeza e simplicidade: -Calma, vó, pode olhar melhor aqui e vai ver que não precisa ter medo. São apenas fotos de gente grande brincando. Baco me disse que o nome dessa brincadeira é sexo. Disse mais: Que todas as pessoas e até os animais foram feitos quando o papai e a mamãe de cada um estavam brincando disso. É verdade, vó, que se meu pai e minha mãe nunca tivessem brincado de sexo eu não estaria aqui hoje? Bastante desconcertada pelo embaraço desse momento, dona Josefina retoma o fôlego para tratar com a severidade necessária aquele pesadelo. –Olha, menino, quero que saiba que isso que você fez é muito feio. Você não pode ficar vendo esse tipo de coisa. Papai do céu acha isso muito feio. Me dê pra cá logo essa praga e nunca mais me venha com uma maldição dessa para esta casa. E o garoto ficou perdido entre a tranqüilidade com que seu colega lhe apresentara aquele material e o desespero reprovador de sua avó tão querida. Estava agora explicado. Esse teria sido o motivo pelo qual a sua velhinha do coração o estaria abandonando àqueles homens. Aquele fato deveria ter realmente representado para a sua avó uma falta gravíssima, imperdoável, condenando-o à expulsão daquele casto lar. Lembrou-se ainda de como a sua teimosia teria ultrapassado todos os limites quando resolveu questionar Dona Fina, voltando ao mesmo assunto proibido, dias depois do ocorrido. –Vó, hoje eu vi um cachorro abraçando uma cadela por trás. Quando me aproximei, percebi que estavam brincando de sexo, igualzinho aos homens e mulheres naquela revista de meu amigo Baco. Aquela que a senhora queimou. Eles olharam para mim, mas continuaram. E tinham outros cachorros por perto, até filhotinhos. Ô, vó, não foi papai do céu quem fez os cachorros também? Por que eles não se escondem quando brincam de sexo, já que é tão feio e papai do céu não gosta? Por que papai do céu deixa eles brincarem na frente de todo mundo, até dos filhotinhos, e eu não posso ver nem fotos de gente grande brincando igualzinho? Lembrou-se da surra que tomou aquele dia. Dona Josefina precisava castigá-lo pela teimosia, apesar de ficar surpresa com as colocações do garoto, que a deixaram como que a viajar diante de observação tão óbvia que só poderia sair da mente virgem de um garoto de oito anos. Ora, dizemos que os animais são irracionais. O que isso significaria? Que assim como nós, humanos, temos a liberdade de ação e pensamento pelo uso da razão, os demais animais, esses irracionais, são escravos dos seus próprios instintos. As nossas ações, humanas, seriam fruto das decisões de nós mesmos, humanos. E as ações dos animais irracionais seriam fruto das decisões de quem? Ah, sim, de quem os programou. De quem eles herdaram seus instintos. Isso quer dizer que os seres humanos criaram suas próprias regras, já que tinham liberdade para isso, enquanto todas as demais espécies se mantiveram firmes nas regras naturais de seu criador.
As lembranças desses dois fatos trouxeram à Carpenaldo a razão que ele tanto procurava para agora estar deixando aquele lar sob as ordens de sua vó Fina. E seguiu o seu caminho, com seus dois novos companheiros, para viver nova fase de sua vida. Sem entender bem o porquê de estar profundamente atraído para aquele novo destino, incerto e desconhecido.

sábado, 24 de janeiro de 2009

A Epopéia de Carpenaldo: Uma jornada em busca da humanidade perdida

Por Bruno Montarroyos

PARTE I - Tábua I

A visita de Dona Taná


Aquele teria sido apenas mais um daqueles finais de tarde em que o descolorir do dia se precipita sem timidez. Os mares de Olinda pareciam querer fugir através de suas estreitas ruas. Balançavam freneticamente numa dança como que de uma grande multidão a experimentar as atividades mais rudimentares de acasalamento. A respiração ofegante daqueles milhares de amantes reunia-se contra toda a costa, varrendo dali qualquer pretensão de presença humana. Apenas as lágrimas divinas de comoção ainda não se juntara à paisagem, misto de violência e extremo prazer. As únicas lágrimas no momento pertenciam a Carpenaldo, que com os olhos fitos àquela orgia marítima, as sentia bailar sobre o seu rosto miúdo em direção aos seus ouvidos antes de se esvaírem aos céus. Aquele garoto de apenas oito anos não demonstrava nenhum temor diante de cena tão sombria. Estava só. Estava como se não estivesse lá. Imóvel e curioso acerca dos fatos que acabara de presenciar. Bem perto dali, numa das esquinas da rua por trás daquela banhada pelo mar, estava a casa de seus avós. Era a casa onde Carpenaldo morava desde que sua mãe o abandonou. Mas sobre os seus pais teremos oportunidade de conhecer mais tarde. Nessa tarde a novidade não era aquele mau tempo e sim uma visita inesperada que mudaria para sempre a história de Carpenaldo Diemedes dos Santos, seu nome de batismo. Era a primeira vez que o garoto conhecia de perto a velha hospitaleira e gentil que nunca negará a um ser qualquer que seja, até ao mais desprezível, um cômodo que lhe sirva de descanso: A morte, a velha Taná, apelido que tomo emprestado de sua correspondente do grego antigo tanatos. Dona Taná resolveu visitar o avô de Carpenaldo naquele não tão belo dia. Penso até que teria sido exatamente a confusão nos pensamentos do garoto naquele momento a causa de tamanha agitação no céu e no mar aquele final de tarde. E sentindo-se convidado pelo espetáculo que ele, sem o saber, teria acabado de criar, estava ali, sozinho, mergulhado no mais profundo de si mesmo. Assaltavam-lhe as palavras da avó: - Meu filho, assim o chamava, não se preocupe, ele está com Deus e agora viverá para sempre. Não compreendia o que isso queria dizer. Por que o seu avô não mais lhe responde quando o chama? Repetia diversas vezes a mesma frase mágica e infalível que transformava o seu avô em criança novamente: - Nem me pega hoje não, vovão gordão! E saía correndo desembestado para se livrar da fera que acabara de acordar. Mas a fera desta vez permanecia imóvel em sua cama como se estivesse aprisionado a um encantamento que o teria petrificado. As palavras “...e agora viverá para sempre” proferidas pela sua avó não o deixava em paz. Não conseguia encaixá-las devidamente na imagem inerte daquele corpo que um dia fora o seu avô. O mar sombrio de dúvidas experimentado por Carpenaldo nesse dia refletia simplesmente aquela antiga angústia humana que atormentava os nossos antepassados como a nós hoje. Afinal, quanta vida existe depois da morte? Quanto é para sempre? Não, infelizmente não saberia responder a essas questões. Mas há uma outra que me arrisco palpitar uma resposta: Quanta morte existe após a vida. Não responderia eterna porque não me sinto capaz de conceber tal conceito, eternidade. Mas depois de uma vida há morte o suficiente para durar ao menos toda uma vida de outro alguém. A morte do avô de Carpenaldo duraria para esse garoto todo o resto de sua vida, depois desses seus oito anos vividos ao lado daquele vovão gordão. Não sei quanta vida pode haver depois da morte, mas sei quanta morte sucede uma vida. Um dia Carpenaldo será confrontado pela primeira vez com a pergunta-chave de sua história: Quanta vida deve ornamentar uma vida para que a visita da Dona Taná não seja a uma vida já sem vida? Carpenaldo não teve oportunidade de conhecer os Avós de seus Avós. Eles já haviam morrido há pelo menos uns cinqüenta anos. Um dia eles estarão mortos a mais tempo do que o tempo que ficaram vivos. A morte aparentemente é bem mais longa que a vida. O garoto volta então para sua casa como uma pessoa bem diferente. Nunca mais será o mesmo. Por várias vezes ainda presenciará a visita da velhinha Taná. Até o dia em que ele próprio procurará em seus seios abrigo. Mas antes disso encherá de cores os seus dias, de luzes o seu caminho, de grandeza as menores coisas, enfim, encherá de mais vida a vida.
Assim inicia a jornada de Carpenaldo, que aos oito anos conheceu a morte e dela nunca mais esquecerá.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O Evangelho Fora da Religião

Por Bruno Montarroyos

...os problemas sociais da atualidade e a forma como se relacionam entre si e como interagem localmente e globalmente. Investigaremos expressões sociais de teor profético advindas de movimentos políticos, midiáticos, artísticos e musicais da atualidade, comparando a voz e atividade profética nos textos bíblicos a essas expressões... VEJA ESSE TEXTO NA ÍNTEGRA EM: http://sites.google.com/site/bmontarroyos/Home/Monografia.pdf?attredirects=0

Monografia entregue em 2006 à Universidade Católica de Pernambuco por Bruno Montarroyos.

ASSUNTO: Mídia Coorporativa / Mídia Independente, Atividade Profética, Evangelho, Opressão, Globalização.

Juventude e Alienação Religiosa

Por Bruno Montarroyos

O ritmo acelerado de mudanças no tempo em que vivemos é alvo de atenção, exploração e uso de todas as áreas de interesse da vida humana. O desenvolvimento tecnológico, o avanço dos conhecimentos científicos na biologia, medicina, o exame de DNA, o DVD e as músicas em MP3 são pequenas amostras de tudo o que temos presenciado neste mundo que corre, digo, voa do analógico para o digital em uma velocidade cada vez maior... VEJA O TEXTO NA ÍNTEGRA EM:
http://sites.google.com/site/bmontarroyos/Home/juventude_e_alienacao_religiosa.pdf?attredirects=0

Monografia entregue ao Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil em 2003 por Bruno Montarroyos.
ASSUNTO: Religião, Preconceitos, Sociedade.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

A Inovação no Brasil e o cenário internacional

Por Bruno Montarroyos

Diante desse novo cenário de competitividade internacional onde estará o Brasil e o seu sistema nacional de inovação? De que forma o nosso país tem respondido às significativas mudanças das últimas décadas e como tem se projetado no cenário internacional?... LEIA O TEXTO NA ÍNTEGRA EM: http://sites.google.com/site/bmontarroyos/Home/InovacaoBrasileira.doc?attredirects=0

Artigo entregue à disciplina Política Internacional do mestrado em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco. Por Bruno Montarroyos.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Devaneios

Por Bruno Montarroyos

É curioso observar como tudo ao nosso redor está intimamente ligado à forma como percebemos e vivemos a vida. O texto que se segue são devaneios sem uma finalidade específica. Tão somente devaneios.
Ao passar de ônibus por algumas das ruas do centro do Recife fiquei, como de costume, observando a beleza arquitetônica de alguns prédios muito antigos. Os detalhes suaves e delicados em suas fachadas trazem aos olhos e à alma um prazer indescritível. São desenhos tão belos. Com certeza deve ser bem trabalhoso fazer tantos detalhes em uma construção. Bem diferente da sensação que se pode experimentar ao olhar as construções mais modernas, onde as leis de economia de espaço e dinheiro, praticidade e funcionalidade são mais importantes que a singeleza estética. Afinal, para quê tanto detalhe na fachada de um prédio que só serve pra se ficar admirando. Não é útil para nenhuma outra coisa. Dá trabalho construir dessa forma. Dá trabalho cada vez que precisa pintar. Os serviços de pintura são muito mais caros em prédios com desenhos e detalhes bonitos do que em prédios simples e retos.
Fiquei a pensar: De fato é mais racional construir rápido e barato, reduzindo custos, facilitando as manutenções e maximizando os lucros.
As palavras rápido e lucro são de fato palavras de ordem em nossa sociedade do século XXI. Já não basta acesso à internet, agora precisa ser internet rápida (Banda Larga). Não basta poder comer na rua para não precisar voltar em casa entre turnos de trabalho, precisa ser fast-food.
Com essa tendência universal criamos novos paradigmas sociais. Agora não só comida rápida, comunicação em tempo real, ou leitura dinâmica, mas surgiram os amigos rápidos, diálogos rápidos, relacionamentos rápidos, sexo rápido (ou rapidinha). Tudo precisa ser instantâneo, imediato. Não temos mais tempo para cultivar amizades profundas e duradouras. Não temos mais tempo para longas conversas e limitamo-nos a curtos diálogos, geralmente superficiais. Temos muito mais amigos, é verdade. Mas vivemos as nossas amizades com muito menos intensidade. A leitura dinâmica nunca servirá para ler poesias porque é impossível experimentar as sensações de uma leitura poética em um ritmo acelerado. Já imaginou alguém declamando uma poesia como um locutor esportivo narra uma partida de futebol no rádio?
O lucro é da mesma forma a bola da vez. Como poderemos ter mais lucro? Como será mais barato? Na esfera pública das licitações é o pregão, agora eletrônico, que garante o melhor preço de compra. Isso pode significar baixos salários e condições de trabalho escravo na outra ponta, mas o que importa é comprar mais barato.
Com certeza é mais barato construir um prédio moderno que um prédio com detalhes coloniais. Será também mais barato alimentar-se tão somente de pílulas que contenham apenas o que for necessário ao organismo, quando isso for possível. Mas tais pílulas jamais poderão nos trazer os prazeres que as mais criativas e deliciosas guloseimas podem trazer. Será possível um dia programar a nossa audição apenas para o que nos for útil? Só ouviríamos o que quiséssemos e quando quiséssemos. Programar nossos corpos para não sentir dor? Escolheríamos apenas as sensações de prazer. Mas haveria prazer sem a dor? Poderíamos configurar nossos olhos para não ver o que pode nos ser nocivo? Jamais testemunharíamos violência, injustiça, agressão, acidentes e tantos outros fatos lamentáveis. Mas também não poderíamos exercer a nossa sensibilidade a essas coisas e até mesmo lutar contra elas. Programaríamos nossos narizes apenas para os prazeres olfativos? Tudo isso seria muito mais prático.
Existem dimensões em nossa natureza que não podem ser justificadas tão somente pela utilidade funcional. O elemento transcendental cerca a nossa vida de forma que sem ele não há vida. Somos dotados da capacidade de sentir prazer na gustação de alimentos. E como seria bom se fosse possível prolongar o sabor das delícias que comemos por quanto tempo quiséssemos. Infelizmente o sabor só dura enquanto a comida passa pela boca e para experimenta-lo novamente precisamos ingerir mais comida. Foi o prazer gustativo que fez surgir a arte da culinária e não a necessidade de sustentar o corpo. Sentimos sabor para termos prazer (por vezes desprazer, é verdade). O sabor não tem a finalidade de nutrição. Não é o sabor que nutre o corpo físico. O sabor nutre a alma, através do prazer. Foi a capacidade de transcender à lógica e à utilidade que fez nascer a arte da criação de perfumes e não a importância de sentir o “cheiro do perigo”. É verdade que é importante sentir o cheiro do gás vazando ou de incêndio para podermos nos proteger. Mas é nos aromas dos bons perfumes que exercemos a transcendência do olfato. É o nariz como meio de alimentar a alma e não como meio de proteger o corpo. Não basta fazer ninhos como os pássaros, nossos ninhos precisam ser obras de arte, com cores que nos tragam alegria, com objetos que ainda que não tenham utilidade alguma nos tragam boas sensações e sentimentos. Porta-retratos com fotos de pessoas que amamos, quadros que testifiquem uma conquista ou mesmo que nos tragam boas lembranças e pensamentos.
Temos desprezado a transcendência do orgasmo e nos contentado apenas com a imanência da ejaculação. Isso não apenas em matéria de sexo, mas também em outras dimensões de nossas vidas. Triste é que até o que parecia não ser possível encurtar, como a música, tem sido também vítima no nosso fast world. Digo que parecia não ser possível porque não podemos ouvir uma obra musical de uma hora em meia hora. Só tenho dois minutos para ouvir essa música de cinco minutos então vou aumentar a rotação da música. Ninguém faz isso. Mas por outro lado temos músicas de uma nota só e um só verso que se repete um milhão de vezes. Nos primeiros segundos você já ouviu a música inteira e é como se ficasse botando pra repetir. É a ejaculação musical precoce. Pior ainda porque não dá tempo de ninguém gozar.
Da forma como as coisas estão caminhando, é de se esperar que o homem evolua tanto que um dia ele consiga se tornar um computador. E quem sabe as pedras então passarão a se interessar por poesia, pelo belo, pelo simbólico, por relações sadias de profundidade, pela vida.

07/05/2007

Diego JP

Por Bruno Montarroyos

João Pessoa, 14 de Abril de 2005

Tio, me dá um pouco de coca-cola. Foram as únicas palavras que ele me dirigiu. Olhei para o copo cheio, mas logo lembrei que a latinha ao seu lado já havia sangrado até a última gota, deixando ao copo os últimos momentos de prazer. Restava pouco do meu purê de macaxeira com carne de sol e strogonoff de frango, pelo qual paguei R$ 3,50 e que junto com o último copo de coca esperava a consumação daquele momento. Diego – Ah, sim, esse era o seu nome, mas que importa, era apenas mais um menino de rua – Ele comia também o seu purê de macaxeira com carne, como o fazia todos os dias. Pra que tudo fique mais claro, deixe-me voltar um pouco pra contextualizar o momento.
Estava em João Pessoa em mais uma de minhas viagens de trabalho. Era dia 14 de abril de 2005. Resolvi sentar à noite em uma das barracas da feirinha que vendia purê de macaxeira. Fiz o meu pedido (esse você já sabe e não vou repetir). Enquanto comia, uma série de meninos de rua foi aparecendo na barraca. Eles conheciam a dona da barraca e a chamavam de tia. Ela os chamava pelos nomes. Parecia acompanhar a vida de cada um. Perguntava sobre a escola, se ainda estavam ou não cheirando cola, etc. Durante os 20 minutos que passei lá cerca de oito deles comeram de graça o mesmo purê que os clientes pagavam. Achei muito interessante aquele fato que mais parecia uma aberração da natureza (naturaldureza com que tratamos pessoas como aqueles garotos). – Diego, diga aos meninos que joguem as vasilhas no lixo, porque ontem achei um monte delas no chão e isso não se faz. E aquela senhora logo viu a resposta à sua solicitação quando volta o Diego de longe, onde estavam os outros comendo, com as vasilhas vazias para jogar no lixo.
Depois de pensar um bocado na terrível falta que me faria terminar aquela macaxeira com meu último copo de coca-cola pude dizer: - tome, pode pegar. O prazer com que comeu e bebeu fez-me sentir um nó na garganta por haver pensado tanto antes de lhe dar o que pedia. – Senta aí; foram as palavras que saíram como um pedido de perdão, palavras que ele fingiu não ouvir e que eu fingi não ter dito.
Saí dali com a triste comparação entre a senhora que arriscava seu pequeno comércio alimentando meninos de rua (além de fornecer o seu produto de graça para aqueles garotos, muitos fregueses com certeza seriam perdidos com os convidados indesejáveis) e o pastor que teve dificuldade de repartir um pouco de coca-cola.

Aos olhos nus

Por Bruno Montarroyos

Não é fácil pensar diferente da grande maioria das pessoas. Ainda que estejamos plenamente convictos do que pensamos, não é fácil.
Você não acha interessante como às vezes algumas situações em nossas vidas fazem surgir questionamentos e reflexões existenciais, sociais, psicológicas, etc? Hoje tive um daqueles momentos.
Pensei em uma família rica. Calça jeans de R$ 500,00, óculos de sol de R$ 600,00, apartamento de algumas centenas de milhares de reais, educação de primeira para os filhos (futuros grandes empresários), viagens ao exterior, amizades influentes, os melhores profissionais e estabelecimentos médicos para o cuidado de suas saúdes, geladeiras e armários fartos das mais diversas e caras guloseimas, etc. São pessoas muito importantes. Estar ao lado de uma delas faz até com que nos sintamos algo próximo do nada. Não vemos a pessoa e sim o que ela tem. E o que ela tem reflete o que ela é.
Em seguida me veio a imagem de uma família pobre. Roupas rasgadas há muito recebidas usadas por outras pessoas (não ricas, mas menos pobres que as compraram na C&A parcelado em dez vezes). Moradores de barracos precariamente construídos em terrenos invadidos, sem saneamento e esgoto. Educação de terceira para os filhos (os que conseguem se manter na escola). Alimentação e saúde é a sorte quem decide pela vez do sim e do não. Se o que elas têm reflete o que elas são poderíamos considerá-las como pouco menos que os animais.
A velha questão do “por que tão poucos com tanto e tantos com tão pouco” não cala. Pensei também em como medimos as pessoas em um mundo capitalista como o nosso. O quanto damos valor a quem tem muito e desvalorizamos àqueles que tem pouco ou nada. O quanto nos sentimos intimidados diante de alguém identificado por nós como “importante” pelo que tem.
Lembrei daquele filme em que um homem muito bem sucedido ficava preso em uma ilha sozinho após um desastre de avião. Passou alguns anos naquela ilha sem contato com ninguém. Tudo o que tinha agora não valia de nada. Nessa ilha não adiantaria ter muito dinheiro na carteira ou na conta bancária. Não havia comunicação. Sozinho nessa ilha ele não é nada. Não há ninguém para admirá-lo, elogiá-lo, etc. Não há títulos acadêmicos. Ninguém está interessado se sua roupa é de marca ou não, nem ele. Ele tem que lutar para sobreviver. Sua barba cresce, sua roupa é única e o sapato tomou de um cadáver, vítima do acidente. Alimenta-se de coco e peixes conseguidos por suas próprias mãos. Naquele mundo qualquer pessoa seria bem-vinda para um bom papo (até uma bola Wilson). Inclusive aquelas que porventura tenham passado por ele despercebidas ou que até mesmo tenham sido desprezadas por ele por não terem nenhuma posse. Qualquer mulher que ele já tenha olhado com o olhar de desprezo julgando-a incapaz poderia ser inclusive sua esposa nesse seu novo mundo. Nesse mundo ele estava nu. Nu de tudo o que o tornava alguém importante. Nu de todas as suas posses.
Essa idéia de nudez é interessante. A nudez torna todos iguais. Se tivéssemos a experiência de observar pessoas ricas e pobres nuas juntas – Lembro de uma foto que causou escândalo: Foi um artista que fotografou milhares de pessoas nuas amontoadas – seria uma missão impossível separar ricos e pobres. Todos são iguais: seres humanos. Nascem, fazem xixi e cocô (perdão por não pedir perdão pela palavra), sangram, adoecem, riem e choram, sofrem e têm prazer, vivem e morrem. E está aí outra coisa que iguala todos: a morte. Em um dos cemitérios em que estive fiquei observando uma caveira e não consegui enxergar no esqueleto traços que me informassem se pertenceu a um rico ou a um pobre em vida. A morte torna todos iguais. Esqueletos são nus.
Observei também que as crianças não ligam muito pra esse negócio de posses. Junte várias crianças ricas com várias outras pobres numa sala cheia de brinquedos e elas farão amizades umas com as outras, brincarão juntas e não saberão que vivem em circunstâncias diferentes. Não saberão se a roupa do outro foi mais cara do que a sua (mais cara, o que é isso?). Mais tarde elas aprenderão que não devem ser amigas. Contato profissional talvez (patrão-empregado). Mas, enquanto isso não acontecer, a única coisa que as impedirá de se relacionarem serão os pais que já aprenderam a lição. Isso porque as crianças conseguem enxergar a nudez umas das outras. A nudez do “ter”.
Fico me questionando muitas vezes se somos seres tão inteligentes assim. Se de repente os animais não estariam mais evoluídos do que nós. Fazemo-nos escravos de nossas próprias criações. Toda nossa criação útil assumirá um dia um papel também estético discriminatório. Roupas que um dia foram úteis apenas para cobrir o corpo hoje expressam o poder aquisitivo e junto com vários outros acessórios e técnicas de produção determinam se o rapaz ou a moça é interessante ou não para namorar. Os automóveis que surgiram para estreitar o caminho entre uma pessoa e outra separam, através de seus vidros fechados, o mundo de “gente interessante” e “gente desprezível”. Cursos superiores considerados melhores são os que pagam melhor. Logo um médico e um advogado é muito mais do que um professor ou assistente social. É assim também que julgamos um político, que através de sua má fé causa a morte e desgraça de várias pessoas, mais inocente que um garoto que assalta um ônibus para alimentar sua família.
Como gostaria que fôssemos nus aos olhos uns dos outros. Que olhássemos para as pessoas como pessoas e não como proprietários. Aos de mais posses resta o desafio de reconhecer nos de poucas ou nenhumas posses a importância de um ser. Aos de poucas ou nenhumas posses também o desafio de saber que ninguém tem tudo. Que os ricos são pessoas que também tem suas necessidades, embora estas não sejam materiais. E que há oportunidades pertencentes apenas aos pobres da mesma forma que algumas cabem apenas aos ricos.

“...Quem é rico anda em burrico. Quem é pobre anda a pé. Mas o pobre vê nas estrada. O orvaio beijando as fulo. Vê de perto o galo-campina. Que quando canta muda de cor. Vai moiando os pés no riacho. Que água fresca, Nosso Sinhô. Vai oiando coisa a grane. Coisas que pra mode vê. O cristão tem qui andar a pé.” (Luiz Gonzaga – Estrada de Canindé)

Não desejo um mundo onde todos tenham as mesmas posses. Onde não haja ricos e pobres. Mas num mundo onde ser rico ou ser pobre não represente melhores ou piores oportunidades, mais ou menos direitos, muito ou pouco caráter, todo ou nenhum valor, ser ou não ser alguém. Num mundo onde todos aos olhos parecem nus.

10/04/2005