sexta-feira, 26 de junho de 2009

Raio de Sol e Pernambucanidade


Por Bruno Montarroyos

Já passava da meia noite quando me preparava para dormir. A música de fundo era um som festeiro fora dos arraiais dos meus sonhos. Ao ouvir a introdução de "Liberdade" de Marcelo Camelo executado pelas habilidosas mãos de Dominguinhos ao Acordeon pensei: "Marcelo Camelo numa quadrilha junina é bastante inovador e tem a cara de uma amiga minha". Não deu outra e logo ouvi a identificação daquele grupo sob as palavras de seu marcador, irmão da minha amiga Leilane Nascimento: - Raio de Sol ! Estava claro! Era de fato a quadrilha Raio de Sol, da qual participa minha querida amiga, Pernambucana de corpo e espírito, de cabeça e de pés. A alguns passos de minha casa estava a possibilidade de rever essa figura rara que mora provisoriamente em Vitória da Conquista na Bahia. E lá estava ela, bela como o próprio nome da quadrilha. E que espetáculo para aquelas pessoas que estavam presentes ali - Incluindo o seu marido, meu amigo Vandré, gente boa demais. Foi uma verdadeira exaltação à cultura pernambucana. Uma experiência mística, anunciadora de sentimentos os mais diversos, conduzidos por uma beleza que só pode ser expressa e coerentemente vivenciada por nós, esse povo sofrido e festeiro, trabalhador e sonhador, caloroso e sensível. O repertório nos convidava a uma viagem guiada pelas aves nordestinas. Quem recebeu os viajantes foi também quem se despediu no final. Essa ave-homem ou homem-ave, que conta a história do homem com a beleza sonora do canto de uma ave: Patativa do Assaré. E as aves nos conduziram por esses caminhos do nordeste, que ficam entre a luta e o festejo de um povo riquíssimo e honrado. Caminho entre os descaminhos dessa vida, entre a sêca e as enchentes, entre as multidões e a saudade. Como diria Cabral, não o Pedro mas o João, Não o Álvares mas o de Melo Neto, entre a morte e a vida Severina.

Entre o forró, maracatu, xote, baião.
Entre a barriga vazia e a enxada na mão.
Entre as asas brancas e os sabiás
Entre assuns pretos e carcarás.

E ao ser devolvido pelas aves ao chão daquela palhoça
depois de tanta magia fiquei a pensar
Será ousadia a uma conclusão chegar:
Que menos pernambucano é aquele que não estava lá?

Mas não fique triste porque as aves voltaram ao meu encontro com a maior alegria de anunciar:

A união nordestina de aves culturais
Antes que as fogueiras se apaguem
Resolvem presentear com mais uma viagem
Ao que quiser se pernambucanizar mais

Dessa vez com muito mais beleza
Através da nossa natureza
No destino nordestinodescortinar

Místicos encantos e magia
Nordeste e nordesteiros
Asas, aves e puleiros
Música, dança e harmonia

E numa anilha que uma delas carregava, letras de forma anunciavam data e local de partida:
Domingo, 28 de junho, dez e meia da noite
Recife/PE, Sítio da Trindade
Quadrilha Raio de Sol e Pernambucanidade


quarta-feira, 17 de junho de 2009

Omissão ou Missão

Por Bruno Montarroyos

Esse é o retrato da sua omissão ou missão?
O AMARGO, a DOR de OUVIR, FEDE fingir que não VÊ
Que mundo é esse que herdamos do seu?
Que mundo vamos deixar?
Se no meu vôo só há espaço pra um lugar

Há certas coisas que tento, mas não dá pra entender
Deixar sofrer e morrer ou matar seu irmão, seu próprio irmão
Todo o ouro em um só lugar
O barco vai virar
E quem mais peso tiver, primeiro vai afundar

As pessoas, a maior riqueza
Cada um, o melhor lugar

Se o mundo inteiro pudesse ouvir o clamor
Se o zero vírgula e o nove tivessem o mesmo valor
A gente vamo pru mermo lugá
E o que nóis vai levá?
A violência começa no meu modo de pensar

Mundo digital
Realidade presente do que era futuro utópico no passado analógico
Multi-tarefas, multi-função
O que um faz hoje era trabalho para um batalhão, para um batalhão
E com toda essa expansão tecnológica
Expandem-se os espaços entre nós
E a competição espacial rumo ao comodismo social
Me colocam no centro unitário de minha própria atenção
Um dia tivemos jovens lutando para tudo melhorar
Hoje o sofrimento humano é celebrado com pipoca e guaraná
Assassinato é jogo de criança
Fome é entretenimento de jornais
A miséria de tantos de mim recebe apenas medo, desprezo

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Sobre Crianças em situação de risco ou "Viajando na Maionese" (Segundo Cacau, minha futura holder)

Por Bruno Montarroyos

Um dia eu estava em um workshop de bateria com um baterista mundialmente conhecido, chamado Johnatan Moove. Ele demonstrava uma habilidade extraordinária naquele instrumento. E a sua bateria era daquelas enormes, cheias de recursos. Enquanto ele tocava, previamente combinado algumas pessoas iam lentamente tirando as peças da bateria. Tiravam-lhe tudo exceto os três componentes básicos: O bumbo, o Chimbal e a caixa. E ele tocava com a mesma maestria. No final ele explicou: Não precisa ter um instrumento cheio de recursos para ser um bom músico. O bom músico saberá trabalhar com o que tem em mãos e fará disso o suficiente para obter os melhores resultados. Aquilo me chamou bastante atenção. Eu lembro. Como gosto de lembrar das coisas. Acho que a atividade de lembrar é uma das que mais me fascina. Quem não gosta de trazer à memória boas lembranças? Lembro que teve um acampamento desses de igreja que a banda teve uma discussão e terminou que os instrumentos musicais não foram levados ao acampamento. O ambiente era de extrema desolação. Nessa época eu era muito animado, empolgado. Procurei logo animar os músicos: -Não se deixem vencer, falei. Propus fabricarmos instrumentos ali. E logo depois estávamos com alguns instrumentos que nós mesmos fizemos com bambus, madeira e outras coisas que não lembro bem. Esse exercício de voltar no tempo para novamente experimentar, ao menos nas lembranças, aquilo que um dia nos deu prazer. Eu quero falar sobre crianças em situação de risco, mas quando tento me concentrar nesse assunto é impossível fugir a alguns pensamentos. Afinal, o que é uma criança em situação de risco? As cartilhas me dirão que são aquelas crianças que estão expostas a situações que possam causar danos à sua saúde fisica ou emocional, ao seu desenvolvimento, etc. A situação de risco seria então esse contexto onde uma criança pode ser coptada mais facilmente para a prostituição ou para o tráfico de drogas, por exemplo. São muitos os casos de crianças exploradas nessas atividades. E o que nós podemos fazer diante de um contexto aparentemente tão difícil de se resolver? Penso primeiramente em tentar entender o que provoca essa situação de risco. Essa situação de risco a que as crianças estão expostas é uma realidade generalizada? O que seriam crianças em situação de risco em uma tribo indígena que ainda não foi desapropriada pela nossa modernidade? Existiriam essas crianças? Existiria essa situação de risco nesse contexto? Creio que não. Penso que a situação de risco que falamos é o resultado de coisas que inventamos. Somos muito criativos. E com essa criatividade criamos muita coisa boa. Mas hoje também é criada muita futilidade que querem empurrar-nos goela abaixo. Esse mercado capitalista quer nos convencer que a nossa felicidade está exatamente em algo que ainda não temos. E assim vivemos. Sempre em busca dessa felicidade que virá na próxima compra. Todos querem ter isso e aquilo que o outro tem. E penso que muito dessa "situação de risco" que algumas crianças se encontram tem a ver com isso. A maioria das crianças que entram no mundo da prostituição ou do tráfico de drogas, por exemplo, o fazem geralmente motivados pela necessidade de "ter" também os produtos que todo mundo tem. Mata-se para conseguir o dinheiro para comprar aquela bermuda de marca ou aquele aparelho do MP da vez. Eu volto no passado e me lembro que os melhores presentes que tive foram fabricados pelo meu pai ou por mim mesmo. Lembro de um caminhãozinho de madeira que ele me deu. Ele mesmo fabricou. Aquele ato de fabricar os próprios brinquedos me inspirava e me tornei uma criança bastante criativa. Inventando brinquedos e brincadeiras. Acho que hoje poucos pais fabricam brinquedos para os seus filhos. Talvez tenham medo de seus filhos não gostarem. Afinal a TV diz o que é legal dar de presente. E nós temos que aceitar. Gosto de lembrar desses brinquedos fabricados em casa muito mais do que dos que foram comprados. No futuro muitas crianças terão lembranças bem diferentes das que tenho da minha infância. Lembrarão de presentes como playstation, mp3, celular... Acabei de ler uma frase na camisa de um rapaz que dizia: "A máquina não é mais importante do que as mãos". Imagino que a camisa dele deva ter sido costurada à mão. Lembro que nós costumávamos comprar tecidos e entregar a costureiras para fazer-nos roupas. Era um trabalho manual e muitas pessoas viviam de trabalho assim. Há um versículo em Eclesiastes 2.24 que diz "Vejam: a felicidade do homem está em comer e beber, desfrutando o produto do seu trabalho". Não quero dizer para voltarmos tudo como era no passado, mas já parou para pensar? Todos trabalhando, plantando, cuidando dos bichos e vivendo do produto direto do próprio trabalho como foi um dia? Onde estaria a situação de risco? Infelizmente não é possível voltar a sociedade inteira para isso, mas vale lembrar para pelo menos saber avaliar melhor a importância das coisas. Saber o que é importante mesmo e o que não é tão importante. Uns plantavam, outros cuidavam de bichos, outros costuravam, cada um era bom em uma arte e a ensinava aos seus filhos. Mas como hoje preferimos comprar as coisas daquela marca legal que passa na TV, aí existe cada vez menos artistas. Preferimos usar as coisas que são fabricadas aos milhões por máquinas que tiraram empregos de muita gente. Porque assim não nos sentimos inferiores ao que já tem esse produto. Como vou usar uma roupa de costureira se todos estão usando aquela marca legal? Assim quem pode pagar pela marca famosa paga. Quem não pode tem que arrumar alguma outra forma de ter. Lembro quando eu, meu pai, minha mãe e minha irmã saíamos na rua cada um com um pano nas mãos e gritando: - Cai, cai, tanajura, tua bunda tem gordura !!! Lembro das brincadeiras na rua enquanto eles estavam sentados em cadeiras também naquela rua de barro. O que mais me traz alegria nessas lembranças é a presença deles ali, juntinhos conosco, participando. Não existe coisa mais rica nesse mundo do que a nossa presença junto àqueles que amamos. Essa semana eu estava revendo fotos daquela nossa casa em Caetés. A casa tinha um pequeniníssimo banheiro, uma cozinha e uma sala que também nos servia como quarto da família inteira. Cercada por uns sarrafos de madeira, com portão e tudo. Muros não existiam. Eram cercas de madeira ou nada. Quando chovia era uma lama só na rua. Mas como éramos felizes. Aprendi desde cedo a viver muito bem com o que tinha. Se meu pai não podia comprar um brinquedo legal da moda que eu via na tv ele fazia um brinquedo como o caminhãozinho de que falei. Se não podíamos comer de todas as guloseimas que existem, comíamos alegremente do que podíamos. Quando meus pais podiam, compravam roupas, mas usávamos também roupas que recebíamos de parentes numa situação melhor. Roupas que não usavam mais. Os "nãos" que tive durante a minha infância me ensinaram bastante. Nenhum pai ou mãe deveria se envergonhar quando não tivesse condições de dar um presente "legal" daqueles que passam nos comerciais da TV. Deveriam sim, se envergonhar de dar tudo o que os filhos pedirem. Precisamos aprender a ter e a não ter as coisas. Mesmo se eu tivesse condições o suficiente para dar tudo o que minhas filhas me pedissem eu gostaria de ter sabedoria para dizer não. Elas precisarão aprender a não ter algo que querem. Se todos conseguirmos educar assim os nossos filhos, só isso significaria uma “situação de risco” bem menor para as crianças empobrecidas. Em meu texto “Penumbra” falo sobre a luz de uma vela. Se muitas pessoas estão reunidas em um galpão muito bem iluminado durante a noite é possível ver a todos. Mas veremos todos de uma forma muito superficial por haver muitas pessoas. Umas perto outras longe, mas muita gente, muita informação. Se apagássemos todas as luzes desse ambiente e deixássemos uma vela próximo de uma dessas pessoas da multidão seria provável que muita gente daquela multidão perceberia pela primeira vez essa pessoa iluminada pela luz da vela. Como pode uma luz tão pequena e fraca mostrar detalhes que todos os refletores outrora acesos não mostravam? E se essa pequena luz fosse passando de mão em mão, devagar, cada pessoa teria o seu momento de ser o foco de todas as atenções. Os detalhes das unidades seriam mais intensos do que quando todos estavam à vista ao mesmo tempo. Os instrumentos de que falei no começo, improvisados, simples, o caminhãozinho de madeira que o meu pai me deu de presente e a vela de que falo agora, todos fazem parte do mesmo mundo: O mundo da simplicidade. Todos me dizem que é possível ter o máximo de prazer na vida, viver intensamente, viver bem e feliz, sem precisar ter muita coisa. Se faltar uma bateria cheia de recursos na nossa vida, é possível tocar a vida com um caixote simples, desde que não falte a alegria musical em nosso viver. Se faltar dinheiro para dar presentes, é possível fabricar algo, de coração, ainda que seja uma carta dizendo àquela pessoa o quanto a estimamos. Não deixe de se fazer presente à comemoração de alguém por não ter um presente legal. Ora, se não tivermos todos os produtos que a modernidade da eletricidade e eletrônica trouxeram para encher o nosso dia-a-dia de refletores, é possível que a luz de uma pequena vela possa nos proporcionar uma visão ainda mais intensa. A vela aqui representa as coisas que já temos em mão, mas que as muitas coisas que ficamos interessados em ter nesse mundo não nos permitem vê-las. São aquelas pessoas que estão perto de nós, é a saúde, qualquer coisa que já temos. Espalhemos a notícia. Podemos viver bem agora, com o que temos, sem ter grandes ambições de ter muitas coisas para que possamos ser felizes. Espalhemos a notícia. Se todos conseguissem enxergar a beleza, a intensidade da luz de uma simples vela, teríamos a mesma situação de risco de uma tribo indígena: Nenhuma. E assim não haveriam crianças em situação de risco. Desculpas aos que esperavam dados estatísticos e informações atualizadíssimas sobre as crianças em situação de risco em nosso país. Mas imagino que essa informação esteja muito mais disponível por aí do que essa que tentei passar. E repito: o “risco” do qual falamos é exatamente a necessidade do “ter”. Quem já tem tudo não está na “situação de risco”. Só quem quer ter. Crianças em situação de risco são crianças que querem “ter” ou que os pais querem “ter”. E esse "ter" não é só o da subsistência. E essa necessidade do "ter" cresce à medida que os que já têm alguma coisa querem ter cada vez mais. E para isso querem convencer todos nós a querer também ter cada vez mais. E um mundo onde ninguém consegue estar bem com o que já tem é um mundo de situação de risco. E a minha conclusão é que o fato de existirem crianças em situação de risco no mundo em que vivemos explica-se pela existência de adultos em situação de ganância.

Parte do sermão na Primeira Igreja Batista em Bultrins em 07/06/2009

sábado, 30 de maio de 2009

Penumbra

Por Bruno Montarroyos

Uma vela acesa ao meu lado
Traz uma faísca do passado, amor
Luz silenciosa que permeia
De beleza tudo o que rodeia

A escuridão que esconde os seus
Tesouros mais secretos
Ofuscados pelo excesso
Do Fulgor da luz dos refletores
Sóis que roubam a essência
Mais profunda dos detalhes
Que essa penumbra pode dar


Sentado à meia escuridão, parcialmente interrompida por uma pequena vela acesa sentada ao meu lado no sofá de casa. Percebo que os objetos ao redor da luz de uma vela trazem uma beleza que uma luz mais intensa não pode proporcionar. A quantidade de informações que se tem dos objetos é bem menor sob a luz de uma pequena vela, mas a profundidade das informações é inigualável. Uma luz elétrica de forte intensidade como as que usamos apresenta todos os objetos ao seu redor no mesmo plano. Tudo muito bem iluminado. Dependendo da quantidade destes, ficamos à nossa frente com um sem-número de coisas com as quais podemos nos distrair. São fontes iluminadas implorando por nossa atenção. Uma vela acesa não tem um alcance luminoso capaz de descobrir a nós tudo ao mesmo tempo. Ela não tem o poder de simular na noite a luz do dia. Para descobrir o universo ao nosso redor é preciso que nos desloquemos conduzindo a luz da vela junto a nós. E assim a sua luz nos apresentará os detalhes de cada objeto. Detalhes que passariam despercebidos se tivéssemos todos ao mesmo tempo à nossa mira. Uma descoberta gradativa forçando-nos a dedicar mais atenção aos objetos mais próximos revelados pela fraca luz. A vela geralmente traz consigo o silêncio. A pouca luz, poucas coisas para se distrair por vez, junto com o silêncio, trata-se de um convite para viver o presente com mais intensidade. Sim porque se nos imaginarmos numa caminhada. Uma estrada plana, longa, cheia de atrações, pessoas, paisagens, oportunidades, experiências diferentes. Imaginemos essa caminhada à plena luz onde você consegue ver as coisas que só conseguirá alcançar em algumas horas. Podemos dizer que você está enxergando o seu futuro. Seus olhos estão já se distraindo com motivos que só no futuro estarão próximos a você. Você os vê bem longe na estrada à sua frente. E é muito provável que a distração com essas coisas pertencentes ao seu futuro tire de você a oportunidade de enxergar e participar de tudo o que já está diante de você. O seu presente. Essa mesma caminhada na escuridão, parcialmente interrompida por uma pequena vela acesa, lhe obrigaria a reparar mais naquilo que está mais próximo. Pois o futuro só seria revelado quando a pequena luz estivesse presente. Quando você pudesse de fato participar daquele momento aí sim ele estaria à sua vista. Enquanto isso você seria obrigado a viver o presente com tudo o que ele oferece. Nós humanos somos muito criativos. Criamos tanta parafernalha, das quais nos tornamos dependentes, que muitas vezes é difícil saber dar importância às coisas certas. Um dia já vivemos satisfeitos apenas com comida e companhia. Hoje nós temos à nossa vista uma quantidade e variedade enorme de coisas que queremos ter para que nos consideremos realizados. Talvez uma pane global que roubasse toda a energia da terra conseguise nos dar a oportunidade de reaprender quais são as coisas mais importantes. Já simulou como seria? Nenhuma energia elétrica. Um mundo sem luz elétrica, sem TV, sem rádio, sem computadores, sem celular... Assim aprenderíamos a dar mais valor a tudo aquilo que está bem pertinho de nós, incluindo aqueles que nos amam e a quem amamos também.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Retratação

Por Bruno Montarroyos

Cláridas belezas!
Já não vejo
As cores-luz do dia
Lembranças de alegria
Pegadas no vazio
Já não vivo

Sugaram-me as forças
Já não fujo
Tornei-me logo em réu
De um crime contra os céus
No agonizar da dor
Já não morro

Não vejo, não vivo, não fujo
Já não sou
Moldado à vontade alheia
Não morro pelo que corre na veia
Convenientemente político
Já não Eu

20/07/2004

domingo, 1 de março de 2009

A Epopéia de Carpenaldo: Uma jornada em busca da humanidade perdida

Por Bruno Montarroyos

PARTE I - Tábua II

Os Monges


Já passavam das cinco da tarde quando Carpenaldo voltava do Alto da Sé, em Olinda, em direção à sua casa. Descia pela ladeira da Travessa Luiz Gomes, caminhando, na companhia de seu amigo mais velho Dionísio. Passaram pela pequena praça Dantas Barreto e em cinco minutos já estavam na esquina da Rua do Sol com a Floriano Peixoto, onde ficava a casa da avó de Naldo, sua casa também. Lá o aguardava dona Josefina, acompanhada de duas visitas inesperadas. Eram dois homens trajando vestes de monges. Vestiam uma espécie de roupão grosso cor de vinho escuro que descia até os seus pés e com mangas compridas e folgadas. Uma corda grossa os abraçava à altura de suas cinturas, fechando o roupão como um quimono. Junto ao pescoço caia uma cobertura para a cabeça, semelhante às encontradas em capas de chuva. Após se despedir de Dionísio, Naldo se depara com essas duas figuras em sua casa, cuja aparência lembrava a própria caricatura da morte, exceto pela falta da foice peculiar que carrega à mão. - É ele, disse Dona Josefina aos dois visitantes enquanto apresentava o seu neto. - Venha cá, menino, estes homens estavam te esperando. Você irá com eles. Acho que vai ser o melhor para você. Carpenaldo ficou estático. Todo o seu sangue parecia ter fugido de repente. Não poderia ser uma experiência real que estava vivendo naquele momento. Primeiro não sabia explicar os sentimentos que tomaram o seu pequeno corpo quando se aproximou daqueles dois homens estranhos, mesmo antes que a sua avó pronunciasse aquelas palavras sobre a sua iminente partida. Ao se aproximar daquelas visitas misteriosas Naldo olhou rapidamente para trás com a intenção de vislumbrar ainda o distanciar de seu amado amigo Dionísio. Mas foi tomado por um sentimento repentino de repulsa daquele companheiro até tão recentemente venerado. Olhava em volta para tudo aquilo que outrora provocara dentro de si uma explosão de prazeres dos sentidos, mas tudo agora parecia sem vida, sem cor, sem magia. E toda essa mudança surgiu instantaneamente quando ele chegara à presença daqueles dois personagens insólitos. Ao lado desses sentimentos repulsivos diante do seu mundo outrora belo, juntava-se um sentimento de profunda admiração e atração pelos seus visitantes aquele dia. Parecia emanar deles uma aura encantada que trazia à Carpenaldo, ao mesmo tempo, uma sensação de confiança irrestrita, bem como de um desejo irresistível de segui-los para onde quer que fossem. Ao ouvir a sua avó anunciar que ele deveria partir com aqueles desconhecidos, apesar de toda a força que o impulsionava àquele destino, ficou a se perguntar as razões de dona Fina em entregá-lo tão repentinamente a um futuro tão duvidoso. Lembrou-se logo de um fato acontecido por aqueles dias e que poderia muito bem ser a explicação que tanto precisava naquele momento. Voltava de mais uma de suas aventuras com o seu companheiro inseparável Dionísio. Ao entrar em casa sua avó teria percebido a possibilidade de seu neto indefeso estar portando material impresso não adequado à sua perfeita educação cristã, muito menos à sua idade. Naldo teria passado por ela, naturalmente, sem medo de estar contrariando quaisquer preceitos morais - se é que possuía alguma idéia sobre essas coisas, portando uma revista com fotografias de sexo explícito, fruto de uma de suas conversas com o seu amigo Baco – assim chamava Dionísio por achar complicado demais a pronúncia de seu nome polissílabo. Recolhido em seu canto no interior mais profundo daquela casa, entre os ecos dos motores que roncavam na Rua do Sol e o silêncio que conduzia a calma melodia do encontro das ondas com aquela costa ali tão perto, Carpenaldo viajava por entre as páginas mágicas da mais antiga arte dos prazeres humanos. Era como um descortinar de um mundo até então desconhecido, místico e anunciador de uma ludicidade tão intensa, profunda e ilimitada quanto o seu estado de admiração diante de tamanha novidade. E foi exatamente no auge dessa incandescência sensitiva que o surpreendeu o som ensurdecedor de censura da sua avó protetora que até então custava a acreditar em cena por demais assombrosa: -O que é isso, garoto! Que coisa horrorosa é essa que você está vendo? Inocentemente, com a certeza incontestável de que vó Fina estaria bastante equivocada quanto ao conteúdo do material em suas mãos, Naldo, recuperando-se do susto provocado por aquele estrondo sonoro de furor, responde com firmeza e simplicidade: -Calma, vó, pode olhar melhor aqui e vai ver que não precisa ter medo. São apenas fotos de gente grande brincando. Baco me disse que o nome dessa brincadeira é sexo. Disse mais: Que todas as pessoas e até os animais foram feitos quando o papai e a mamãe de cada um estavam brincando disso. É verdade, vó, que se meu pai e minha mãe nunca tivessem brincado de sexo eu não estaria aqui hoje? Bastante desconcertada pelo embaraço desse momento, dona Josefina retoma o fôlego para tratar com a severidade necessária aquele pesadelo. –Olha, menino, quero que saiba que isso que você fez é muito feio. Você não pode ficar vendo esse tipo de coisa. Papai do céu acha isso muito feio. Me dê pra cá logo essa praga e nunca mais me venha com uma maldição dessa para esta casa. E o garoto ficou perdido entre a tranqüilidade com que seu colega lhe apresentara aquele material e o desespero reprovador de sua avó tão querida. Estava agora explicado. Esse teria sido o motivo pelo qual a sua velhinha do coração o estaria abandonando àqueles homens. Aquele fato deveria ter realmente representado para a sua avó uma falta gravíssima, imperdoável, condenando-o à expulsão daquele casto lar. Lembrou-se ainda de como a sua teimosia teria ultrapassado todos os limites quando resolveu questionar Dona Fina, voltando ao mesmo assunto proibido, dias depois do ocorrido. –Vó, hoje eu vi um cachorro abraçando uma cadela por trás. Quando me aproximei, percebi que estavam brincando de sexo, igualzinho aos homens e mulheres naquela revista de meu amigo Baco. Aquela que a senhora queimou. Eles olharam para mim, mas continuaram. E tinham outros cachorros por perto, até filhotinhos. Ô, vó, não foi papai do céu quem fez os cachorros também? Por que eles não se escondem quando brincam de sexo, já que é tão feio e papai do céu não gosta? Por que papai do céu deixa eles brincarem na frente de todo mundo, até dos filhotinhos, e eu não posso ver nem fotos de gente grande brincando igualzinho? Lembrou-se da surra que tomou aquele dia. Dona Josefina precisava castigá-lo pela teimosia, apesar de ficar surpresa com as colocações do garoto, que a deixaram como que a viajar diante de observação tão óbvia que só poderia sair da mente virgem de um garoto de oito anos. Ora, dizemos que os animais são irracionais. O que isso significaria? Que assim como nós, humanos, temos a liberdade de ação e pensamento pelo uso da razão, os demais animais, esses irracionais, são escravos dos seus próprios instintos. As nossas ações, humanas, seriam fruto das decisões de nós mesmos, humanos. E as ações dos animais irracionais seriam fruto das decisões de quem? Ah, sim, de quem os programou. De quem eles herdaram seus instintos. Isso quer dizer que os seres humanos criaram suas próprias regras, já que tinham liberdade para isso, enquanto todas as demais espécies se mantiveram firmes nas regras naturais de seu criador.
As lembranças desses dois fatos trouxeram à Carpenaldo a razão que ele tanto procurava para agora estar deixando aquele lar sob as ordens de sua vó Fina. E seguiu o seu caminho, com seus dois novos companheiros, para viver nova fase de sua vida. Sem entender bem o porquê de estar profundamente atraído para aquele novo destino, incerto e desconhecido.

sábado, 24 de janeiro de 2009

A Epopéia de Carpenaldo: Uma jornada em busca da humanidade perdida

Por Bruno Montarroyos

PARTE I - Tábua I

A visita de Dona Taná


Aquele teria sido apenas mais um daqueles finais de tarde em que o descolorir do dia se precipita sem timidez. Os mares de Olinda pareciam querer fugir através de suas estreitas ruas. Balançavam freneticamente numa dança como que de uma grande multidão a experimentar as atividades mais rudimentares de acasalamento. A respiração ofegante daqueles milhares de amantes reunia-se contra toda a costa, varrendo dali qualquer pretensão de presença humana. Apenas as lágrimas divinas de comoção ainda não se juntara à paisagem, misto de violência e extremo prazer. As únicas lágrimas no momento pertenciam a Carpenaldo, que com os olhos fitos àquela orgia marítima, as sentia bailar sobre o seu rosto miúdo em direção aos seus ouvidos antes de se esvaírem aos céus. Aquele garoto de apenas oito anos não demonstrava nenhum temor diante de cena tão sombria. Estava só. Estava como se não estivesse lá. Imóvel e curioso acerca dos fatos que acabara de presenciar. Bem perto dali, numa das esquinas da rua por trás daquela banhada pelo mar, estava a casa de seus avós. Era a casa onde Carpenaldo morava desde que sua mãe o abandonou. Mas sobre os seus pais teremos oportunidade de conhecer mais tarde. Nessa tarde a novidade não era aquele mau tempo e sim uma visita inesperada que mudaria para sempre a história de Carpenaldo Diemedes dos Santos, seu nome de batismo. Era a primeira vez que o garoto conhecia de perto a velha hospitaleira e gentil que nunca negará a um ser qualquer que seja, até ao mais desprezível, um cômodo que lhe sirva de descanso: A morte, a velha Taná, apelido que tomo emprestado de sua correspondente do grego antigo tanatos. Dona Taná resolveu visitar o avô de Carpenaldo naquele não tão belo dia. Penso até que teria sido exatamente a confusão nos pensamentos do garoto naquele momento a causa de tamanha agitação no céu e no mar aquele final de tarde. E sentindo-se convidado pelo espetáculo que ele, sem o saber, teria acabado de criar, estava ali, sozinho, mergulhado no mais profundo de si mesmo. Assaltavam-lhe as palavras da avó: - Meu filho, assim o chamava, não se preocupe, ele está com Deus e agora viverá para sempre. Não compreendia o que isso queria dizer. Por que o seu avô não mais lhe responde quando o chama? Repetia diversas vezes a mesma frase mágica e infalível que transformava o seu avô em criança novamente: - Nem me pega hoje não, vovão gordão! E saía correndo desembestado para se livrar da fera que acabara de acordar. Mas a fera desta vez permanecia imóvel em sua cama como se estivesse aprisionado a um encantamento que o teria petrificado. As palavras “...e agora viverá para sempre” proferidas pela sua avó não o deixava em paz. Não conseguia encaixá-las devidamente na imagem inerte daquele corpo que um dia fora o seu avô. O mar sombrio de dúvidas experimentado por Carpenaldo nesse dia refletia simplesmente aquela antiga angústia humana que atormentava os nossos antepassados como a nós hoje. Afinal, quanta vida existe depois da morte? Quanto é para sempre? Não, infelizmente não saberia responder a essas questões. Mas há uma outra que me arrisco palpitar uma resposta: Quanta morte existe após a vida. Não responderia eterna porque não me sinto capaz de conceber tal conceito, eternidade. Mas depois de uma vida há morte o suficiente para durar ao menos toda uma vida de outro alguém. A morte do avô de Carpenaldo duraria para esse garoto todo o resto de sua vida, depois desses seus oito anos vividos ao lado daquele vovão gordão. Não sei quanta vida pode haver depois da morte, mas sei quanta morte sucede uma vida. Um dia Carpenaldo será confrontado pela primeira vez com a pergunta-chave de sua história: Quanta vida deve ornamentar uma vida para que a visita da Dona Taná não seja a uma vida já sem vida? Carpenaldo não teve oportunidade de conhecer os Avós de seus Avós. Eles já haviam morrido há pelo menos uns cinqüenta anos. Um dia eles estarão mortos a mais tempo do que o tempo que ficaram vivos. A morte aparentemente é bem mais longa que a vida. O garoto volta então para sua casa como uma pessoa bem diferente. Nunca mais será o mesmo. Por várias vezes ainda presenciará a visita da velhinha Taná. Até o dia em que ele próprio procurará em seus seios abrigo. Mas antes disso encherá de cores os seus dias, de luzes o seu caminho, de grandeza as menores coisas, enfim, encherá de mais vida a vida.
Assim inicia a jornada de Carpenaldo, que aos oito anos conheceu a morte e dela nunca mais esquecerá.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O Evangelho Fora da Religião

Por Bruno Montarroyos

...os problemas sociais da atualidade e a forma como se relacionam entre si e como interagem localmente e globalmente. Investigaremos expressões sociais de teor profético advindas de movimentos políticos, midiáticos, artísticos e musicais da atualidade, comparando a voz e atividade profética nos textos bíblicos a essas expressões... VEJA ESSE TEXTO NA ÍNTEGRA EM: http://sites.google.com/site/bmontarroyos/Home/Monografia.pdf?attredirects=0

Monografia entregue em 2006 à Universidade Católica de Pernambuco por Bruno Montarroyos.

ASSUNTO: Mídia Coorporativa / Mídia Independente, Atividade Profética, Evangelho, Opressão, Globalização.

Juventude e Alienação Religiosa

Por Bruno Montarroyos

O ritmo acelerado de mudanças no tempo em que vivemos é alvo de atenção, exploração e uso de todas as áreas de interesse da vida humana. O desenvolvimento tecnológico, o avanço dos conhecimentos científicos na biologia, medicina, o exame de DNA, o DVD e as músicas em MP3 são pequenas amostras de tudo o que temos presenciado neste mundo que corre, digo, voa do analógico para o digital em uma velocidade cada vez maior... VEJA O TEXTO NA ÍNTEGRA EM:
http://sites.google.com/site/bmontarroyos/Home/juventude_e_alienacao_religiosa.pdf?attredirects=0

Monografia entregue ao Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil em 2003 por Bruno Montarroyos.
ASSUNTO: Religião, Preconceitos, Sociedade.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

A Inovação no Brasil e o cenário internacional

Por Bruno Montarroyos

Diante desse novo cenário de competitividade internacional onde estará o Brasil e o seu sistema nacional de inovação? De que forma o nosso país tem respondido às significativas mudanças das últimas décadas e como tem se projetado no cenário internacional?... LEIA O TEXTO NA ÍNTEGRA EM: http://sites.google.com/site/bmontarroyos/Home/InovacaoBrasileira.doc?attredirects=0

Artigo entregue à disciplina Política Internacional do mestrado em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco. Por Bruno Montarroyos.